EDITORIAL # 15 | 14 | 13 | 12 | 11 | 10 | 9 | 8 | 7 | 6 | 5 | 4 | 3 | 2 | 1 |

 

>> Editorial boletim nº 15
2009
Henrique Barreto Nunes

O “Solta Palavra” enceta hoje uma nova fase, garantindo a sua sobrevivência pelo menos durante os próximos 2 anos, correspondendo aos sonhos de quantos estiveram na sua origem e desenvolvimento.
No nº 6 (Dez. 2004) perguntava eu se alguém nos ouvia, terminado que fora o apoio incentivador da Fundação C. Gulbenkian e apresentando-se o futuro com cores sombrias. Na altura foi o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas que nos deu um novo alento, permitindo que publicássemos mais 6 números com o seu prestigiante aval, que esperamos continue.
A qualidade e a persistência do nosso boletim chamaram entretanto a atenção de um jovem editor, João Manuel Ribeiro, também ele dedicado à causa da promoção do livro e da leitura junto dos mais jovens que, através da Associação Cultural TROPELIAS & COMPANHIA, decidiu apostar neste projecto.
Foi um compromisso que o CRILIJ assumiu com alguma apreensão, pois tal aumenta a nossa responsabilidade não só junto dos leitores, mas igualmente em relação ao nosso ousado editor. Não tendo uma estrutura profissionalizada, somos obrigados a cumprir prazos com mais rigor e a ter maior contenção nas páginas que escrevemos, mantendo a mesma exigência e rigor.
De resto, a estrutura e o conteúdo intelectual do “Solta Palavra” continuam a depender apenas do CRILIJ e de todos quantos tão generosamente connosco são cúmplices neste projecto.
Achei oportuno fazer para este número um breve balanço do que tem sido o “Solta Palavra”.
O número zero surgiu em Novembro de 2000, com 22 páginas. Até hoje saíram 11 fascículos, correspondendo a 13 números (3 foram duplos). Publicaram-se 635 páginas. Contamos com a colaboração de 92 autores (professores do ensino básico, secundário e superior, bibliotecários, investigadores e críticos literários, escritores, ilustradores, gente apaixonada pelo livro e pela leitura) e ainda, sempre, com o original arranjo gráfico da arquitecta Paula Lopes, a quem agradecemos reconhecidamente a dedicação e o gosto que marcaram este ciclo.
Para cada número foi escrito um editorial que procurava abordar temas que se inscrevem nos interesses do CRILIJ (Redes de Bibliotecas Públicas e Escolares, Manifesto da UNESCO, Plano Nacional de Leitura, empréstimo pago nas bibliotecas, informação editorial, etc.). Dedicamos dossiês bem documentados a 10 escritores portugueses: Natércia Rocha, Luísa Ducla Soares, Álvaro Magalhães, Vergílio Alberto Vieira, Maria Alberta Menéres, José Jorge Letria, Manuela Bacelar, Matilde Rosa Araújo, Luísa Dacosta e Manuel António Pina e ainda a H. C. Anderson e Júlio Verne ( e já agora um abraço ao meu velho amigo José Viale Moutinho, cúmplice noutras andanças).
Recordamos histórias de bibliotecas e bibliotecários, emitimos opinião sobre problemas que nos afectam, recenseamos e criticamos dezenas de livros para crianças e jovens, descrevemos boas práticas de bibliotecas públicas e escolares, demos a conhecer museus diversos e a acção educativa que desenvolvem, não esquecemos as novas tecnologias que tanto nos desafiam, abrimos porta à criação literária.
Não desistimos. Queremos mais. Acreditamos no futuro do livro e da leitura tal como os conhecemos, mas também no que ele trará (já trás) de novo, de diferente e estimulante.

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>> Editorial boletim nº 13 e 14
2008
Henrique Barreto Nunes

1. Quem nos lê? Que prazer, que gosto retiram destas páginas aqueles que as folheiam? Que utilidade têm, que uso delas fazem os que percorrem atenta e demoradamente os textos que, com saber e dedicação, o CRILIJ a todos oferece com a regularidade possível?
Era uma resposta que gostaríamos de ter, um eco cujo reflexo pode influenciar o nosso trabalho, contribuir para melhorar este projecto que é uma causa.
Chegam¬ nos muitas vezes comentários motivadores, incentivos que nos animam ainda mais, referências em blogues que nos tornam conhecidos em lugares inesperados, reacções que nos emocionam e fazem aumentar a vontade de prosseguir, contra ventos e marés, este combate interminável pelos livros, pela leitura.
Este boletim é feito, antes de mais, com a militância apaixonada do “núcleo duro” do CRILIJ, cujos nomes não me deixam citar. É desenvolvido e valorizado com a generosa e solidária participação dos seus colaboradores (professores, escritores, críticos literários, bibliotecários), muitos dos quais nos acompanham e acarinham desde o primeiro número, porque acreditam neste projecto (des)interessado. E assim este boletim acabou por se tornar uma realidade, primeiro com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, agora com o da Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas, a quem agradecemos, pois nos têm permitido materializar este sonho.
Mas queríamos mais, e de mais carecemos para sobreviver: precisávamos essencialmente que as bibliotecas, as escolas, as câmaras municipais e outras entidades assinassem o boletim, o distribuíssem e o dessem a ler a todos quantos ele se dirige, a todos quantos dele necessitam; precisávamos que as pessoas que o julgam essencial para o seu trabalho ou para o seu prazer de leitores fizessem o mesmo, tornando¬ o mais conhecido, assim nos dando um novo alento.
Era igualmente importante que a Imprensa, sobretudo a especializada, nos dedicasse alguma atenção: o imprescindível “Jornal de Letras” (através do JL/Educação), a magnífica “Ler”, a persistente “Os Meus Livros” já começaram a reservar algumas das suas páginas à literatura infanto¬ juvenil, delas não excluindo, como é natural, a análise dos problemas do livro e leitura (mercado, sociologia, hábitos, práticas). Mesmo a imprensa diária e semanal, embora tímida e incipientemente, de vez em quando refere a edição dos novos títulos dedicados a crianças e jovens.
Porém, o “Solta Palavras” em nenhum caso mereceu dessas publicações qualquer referência, uma simples nota de leitura. Porquê?

2. Apesar deste silêncio que nos atinge (magoa?), o panorama português no que diz respeito ao que ao CRILIJ fundamentalmente interessa, mostra sinais extremamente positivos.
Dele são reflexo o trabalho desenvolvido pelas redes de leitura pública e escolar e o sucesso que o Plano Nacional de Leitura alcançou, como já referimos em anteriores editoriais.
O país fervilha em iniciativas, o livro é dado a ler através de criativos estratagemas, as escolas são receptivas, as bibliotecas movimentam¬ se e multiplicam¬ se em desafios, os escritores e ilustradores deslocam¬ se aos lugares mais recônditos, as editoras e livrarias encontram boas oportunidades para resistir à crise.
A CCDRN apoiou projectos conseguidos de promoção do livro e da leitura, promovidos por exemplo pela Comunidade Intermunicipal do Vale do Minho (“Dar Vida às Letras”), pela Agência de Desenvolvimento Regional do Vale do Ave (“Leituras do Ave”), pela VALIMAR¬ COMURB (“Vale de Letras”), pela Associação de Municípios do Vale do Cávado (“Porque ler é importante”) que depois deram origem a publicações apreciáveis.
Continuam a realizar¬ se no Porto os Encontros Luso¬ Galaico¬ Franceses do Livro Infantil e Juvenil (já com 14 edições), o Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho persiste na organização dos Encontros de Investigadores em Leitura, Literatura Infantil e Investigação, que se realizam em Braga, tal como as “Jornadas do Conto”, promovidas pelo Instituto de Letras da mesma universidade.
A Direcção Regional de Cultura do Norte tem igualmente promovido inovadores programas de incentivo à leitura e escrita com resultados muito positivos.
Reapareceu o “Malasartes”, iniciando um novo ciclo em que a componente científica foi reforçada e se estreitaram os laços com a Galiza, ampliando a qualidade a que a revista dirigida por José António Gomes nos tinha habituado.
No domínio do recurso às novas tecnologias de comunicação e informação deve relevar¬ se o aparecimento do portal Casa da Leitura (www.casadaleitura.org), mais uma louvável iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian, que continua a dedicar uma particular atenção a estas questões. E proliferam os blogues, que merecem igualmente o nosso interesse, pois levam a informação e a análise sobre a literatura infantil e juvenil ou as actividades das bibliotecas a outros públicos.
Enfim há um inventário por fazer (estas referências quase só dizem respeito ao Norte e espero que nos perdoem as omissões involuntárias) que deverá merecer o interesse dos decisores (a nível central e local), dos investigadores, dos formadores, de todos quantos consideram que o problema da leitura é prioritário e deve continuar a suscitar toda a nossa atenção, até para conseguir acompanhar e encontrar alianças junto dos concorrentes, cada vez mais poderosos e presentes no nosso quotidiano, dos tradicionais suportes de leitura.
Mas, acima de tudo, é necessário persistência, continuidade, exigência e consistência.

3. O “Solta Palavras” tem o privilégio de neste número poder contar com a colaboração de uma das figuras mais prestigiadas da literatura portuguesa contemporânea, conhecida pelo rigor e exigência que põe em tudo o que faz, diz ou escreve.
Trata¬ se de José Manuel Mendes, escritor, docente universitário e presidente da Associação Portuguesa de Escritores, que nos honra com algumas páginas inéditas do seu diário incluídas na secção “Palavras à solta”. Para ele toda a nossa gratidão pela atenção que este boletim lhe mereceu.

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>> Editorial boletim nº 11 e 12
2007
Henrique Barreto Nunes

As virtualidades e a importância do Plano Nacional de Leitura têm sido unanimente reconhecidas pelo que não me vou deter no impacto que se reconhece na promoção dos hábitos de leitura e consequentemente na utilização das bibliotecas – escolares, municipais e outras – no nosso país.
Basta recordar que no balanço do seu primeiro ano de existência se podem registar resultados extremamente positivos, visto que um milhão de crianças, do pré-escolar ao 6º ano de escolaridade, foram abrangidas por acti-vidades diárias de leitura orientada.
Por outro lado, com o apoio da Rede de Bibliotecas Escolares e recorrendo a especialistas, foram seleccionados 643 títulos, organizados em 23 listas, de obras por graus de dificuldades, para leitura na sala de aula e para leitura autónoma, para o que se verificou igualmente o contributo das bibliotecas municipais.
Neste momento o que mais interessa salientar é o lançamento de estudos, cuja necessidade de há muito era reclamada, e que visam reunir informação actualizada acerca de questões essenciais relativas à leitura e fundamentar a intervenção nesta área, na sequência de uma avaliação rigorosa do estado da situação.
Cumprindo escrupulosamente o calendário definido, em Outubro passado, numa conferência realizada na Fundação C. Gulbenkian, foram apresentados os resultados de cinco dos estudos lançados no âmbito do PNL:

. Hábitos de Leitura dos Portugueses
. Hábitos de Leitura da População Escolar
. Instrumentos de Avaliação da Leitura
. Promoção da Leitura nos Países da OCDE
. Resultados da Avaliação do 1º ano do PNL

O primeiro inquérito (o único até agora publicado) incidiu sobre o universo composto pelos residentes no con-tinente com 15 ou mais anos de idade que declaram saber ler e escrever, o que corresponde a um contingente populacional de cerca de 7.5 milhões de habitantes – sendo 2552 os inquiridos.
O primeiro resultado a reter – e mal era se não fosse assim – é o de que os portugueses estão a ler mais do que há 10 anos atrás, tanto livros como revistas e jornais – cerca de 88% dizem-se leitores de pelo menos um destes suportes (83% jornais, 73% revistas e 57% livros). Há porém 12,4% de portugueses totalmente imunes à leitura.
O número de leitores de livros aumentou cerca de 7% – ronda agora 57% dos nossos compatriotas.
Mas se formos ver os que declaram ter lido um livro, sem ser escolar ou profissional, há menos de 1 mês, esse número pouco ultrapassa os 29%.
Por razões que todos conhecemos – forte analfabetismo em pleno séc. 20 (40% da população nos anos 50); escolaridade obrigatória muito reduzida até aos anos 60; frequência da universidade irrisória até à década de 80; inexistência de bibliotecas públicas e escolares, do que resultavam práticas culturais quase inexistentes e uma tremenda iliteracia no âmbito familiar – os números positivos apontados ainda estão muito distantes daquilo que se passa na maioria dos países europeus.
Em contrapartida, Portugal não acompanha a tendência de recuo na leitura que se verifica nesses países, embora não se possam esquecer os baixos patamares de partida.
Quanto aos “Hábitos de Leitura da População Escolar” o estudo, ainda não distribuído, fez o ponto da situação da leitura dos estudantes portugueses, do 1º ao 12º ano, tendo sido inquiridos quase 24 mil alunos.
De acordo com o resumo da comunicação apresentada à Conferência do PNL, os resultados manifestam níveis de leitura muito razoáveis ao longo da escolaridade, contradizendo a ideia-feita de que os nossos estudantes lêem pouco.
“É nos primeiros anos que se formam atitudes e comportamentos face à leitura, os quais irão condicionar em grande medida o futuro gosto de ler”. E embora, nos primeiros anos, além da leitura, as crianças tenham outras actividades muito diversificadas que combinam o físico e o intelectual, o que se observa é que 61 por cento dos meninos dos 3º e 4º anos confessam que “gostam muito” de ler. É no 2º ciclo, quando já sabem ler bem e com-preender o que está escrito, que os alunos se entusiasmam com a leitura: 90 por cento diz “gostar muito ou assim-assim de ler” – é a percentagem mais elevada dos quatro níveis de ensino. Apenas quatro por cento não dedicam nenhum tempo diário à leitura de livros não escolares, jornais ou revistas. Os pré-adolescentes manifestam uma atitude positiva e associam à leitura conceitos como “imaginação, aprendizagem, diversão, prazer e utilidade”.
Chegados ao 3º ciclo, os valores caem: há 29 por cento dos inquiridos que dizem “gostar pouco ou nada de ler”. Quase ¾ não leram outros livros que não os escolares, mais de metade não tinha lido sequer os escolares e cerca de um terço não leu jornais ou revistas, no último ano. E o desinteresse vai crescendo à medida que passam de ano, ou seja, é maior no 9º do que no 7º ano (segundo jornal “Público”, de 23 Out. 2007)
No ensino secundário os dados obtidos são outros, ainda menos entusiasmantes, mas tal já ultrapassa o âmbito deste texto.
Os resultados mais visíveis, até agora, do PNL, foram o envolvimento de professores e familiares, acompanhados por outros parceiros como as autarquias e as fundações.
Segundo Isabel Alçada “existe um ambiente social muito receptivo à leitura”, ideia que é complementada pela estatística da edição de livros em Portugal: em 2006 publicaram-se mais de 15000 novos títulos, o que dá a impressionante média de 41 livros por dia!
O CRILIJ congratula-se com estes resultados e também acha que lhe cabe alguma quota de responsabilidade pelos números e percepções existentes.
Mas esta situação de algum optimismo serve de incentivo para, com o apoio generoso e solidário dos nossos companheiros de jornada, continuarmos a trilhar este caminho, persistindo nos combates pelo livro e pela leitura que são a nossa razão de ser.

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>> Editorial boletim nº 9 e 10
2006
Henrique Barreto Nunes

1. Ler mais é a palavra da ordem do Plano Nacional de Leitura (www.planonacionaldeleitura.gov.pt) que foi apresentado publicamente em 1 de Junho de 2006 e tem consagração oficial através da Resolução do Conselho de Ministros nº 86/2006 publicada no “Diário da República” de 12 de Julho de 2006.
Para melhor conhecer a justificação do lançamento deste plano vamos transcrever um excerto do relatório síntese elaborado pela Comissão que lhe esteve na origem:
O Plano Nacional de Leitura é uma iniciativa do Governo da responsabilidade do Ministério da Educação, em articulação com o Ministério da Cultura e o Gabinete do Ministro dos Assuntos Parlamentares.
Constitui uma resposta institucional à preocupação pelos níveis de literacia da população em geral e em particular dos jovens, significativamente inferiores à média europeia.
Concretiza-se num conjunto de medidas destinadas a promover o desenvolvimento de competências nos domínios da leitura e da escrita, bem como o alargamento e aprofundamento dos hábitos de leitura, designadamente entre a população escolar.
Adopta uma estratégia faseada, devendo abranger os diferentes sectores da população. Para cada fase, de cinco anos, são identificados públicos alvo privilegiados.
Será tecnicamente fundamentado por um conjunto de estudos que irão permitir: operacionalizar metas, criar instrumentos de avaliação, monitorizar programas, avaliar a eficácia das diferentes acções.
Os programas nucleares são os seguintes:
· Promoção da leitura diária em Jardins-de-infância e Escolas de 1º e 2º Ciclos nas salas de aula
· Promoção da leitura em contexto familiar
· Promoção da leitura em bibliotecas públicas e noutros contextos sociais
· Lançamento de campanhas de sensibilização da opinião pública, de programas de informação e recreativos centrados no livro e na leitura através dos órgãos de comunicação social.
São justos, nobres e absolutamente necessários os propósitos desta iniciativa que devia – esta sim – constituir um verdadeiro desígnio nacional, tão evidentes são no nosso país os sinais de desinteresse pela leitura, de descaso pelo livro.
E a leitura desde a mais tenra idade, para a qual se procuram conquistar adeptos, criar dependências, contribuir para a descoberta do prazer que a sua prática permite alcançar, terá que ser muito mais do que aquela que decorre das obrigações da área académica, do domínio profissional ou mesmo das necessidades do dia a dia.
Não se pode ler por obrigação, mas terá que se persistir na criação de condições, na disponibilização de meios, na invenção de estratégias para que o prazer da leitura seja um daqueles que preenchem mais plenamente as nossa vidas, sem esquecer que as redes de bibliotecas públicas e escolares terão uma palavra decisiva a dizer.
O CRILIJ e o seu boletim estão naturalmente de alma e coração com esta iniciativa, que corresponde aliás ao que temos vindo a fazer nestes últimos anos, junto da família, das escolas e bibliotecas, ao lado dos pais, dos professores e dos autores, o que permitiu que nos tornássemos também verdadeiros mediadores da leitura, sempre procurando seduzir e conquistar novos praticantes deste vício terrível em que a leitura se deve transformar.
2. Este boletim é dedicado a Matilde Rosa Araújo e a Maria Keil, ambas responsáveis por algumas das mais belas páginas da literatura para crianças publicadas no nosso país.
Penso que dificilmente poderíamos apresentar melhor contributo para uma das vertentes do PNL do que este efectivo e afectivo gosto de tornar ainda mais conhecidas estas figuras referenciais da nossa literatura e da arte da ilustração.
E a propósito: no ano de 2007 ocorre o 50º aniversário da publicação de “O livro da Tila” escrito por Matilde, ilustrado por Maria. Não haverá algum editor que o queira pôr de novo ao alcance das nossas mãos, juntando-lhe “O cantar da Tila”, através de uma edição graficamente bem conseguida e atractiva que pudesse ser distribuída por todas as escolas, se possível a todas as crianças interessadas?
3. Neste número do “Solta Palavra” apresentamos uma nova secção: “Palavras à solta”, um espaço aberto à criatividade dos nossos leitores, dos nossos autores, que nos queiram surpreender e connosco partilhar as primícias dos seus textos, poéticos ou em prosa.
4. O apoio do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e o protocolo assinado com a Rede de Bibliotecas Escolares do Porto são sinais extremamente gratificantes, que evidenciam reconhecimento pelo trabalho que o CRILIJ tem vindo a desenvolver. Esperamos que estes “estímulos” tão vitais para a sobrevivência do boletim continuem a verificar-se, porque nós persistiremos em contribuir para que todos possam ler +.

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>> Editorial boletim nº 7 e 8
2005
Henrique Barreto Nunes

1. Alguém nos ouviu!
O Instituto Português do Livro e das Bibliotecas entendeu que este boletim merecia o seu apoio e assim, pelo menos durante o presente ano (o que equivale a 2 números), vai garantir o pagamento da sua impressão e a sua distribuição através da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas.
Na verdade o IPLB considera que, entre as suas missões, uma das principais será a da criação e a consolidação dos hábitos de leitura dos portugueses, tendo em especial atenção o público infanto-juvenil, através de projectos e acções que envolvam as comunidades locais e regionais e nessa perspectiva apoia projectos e iniciativas que promovam um maior conhecimento das obras e autores, constituindo um efectivo estimulo à prática da leitura.
Pensamos que é inquestionável que o CRILIJ e o seu boletim cumpre aqueles objectivos, procurando articular a sua acção formativa e informativa com a divulgação e valorização do excelente trabalho de animação cultural promovido pelas redes de bibliotecas públicas e escolares, não descurando o papel fundamental que as novas tecnologias hoje irrecusavel-mente desempenham, em especial no acesso à informação e ao conhecimento.
Por todas estas razões, agradecendo o apoio justo que a partir de agora nos será conce-dido, apenas nos comprometemos em prosseguir ainda com maior determinação, sentido de responsabilidade e tanto quanto possível criativamente com os objectivos que desde o início desta aventura nos animam.
2. Com este número do “Solta Palavra” procuramos evocar a influência primordial que a obra de H. C. Andersen e Júlio Verne teve no despertar do gosto e mesmo da paixão pela leitura nos públicos mais jovens, de há muitas gerações a esta parte.
Confessamos que não adregamos atingir a totalidade do desafio que foi lançado: falharam algumas colaborações, outras revelaram-se difíceis de obter, não foi totalmente conseguida a realização das entrevistas com “velhos” e apaixonados leitores de Júlio Verne que tentámos fazer, da qual restou uma pálida amostra que decidimos incluir no boletim.
Fica, de algum modo, assinalada a perenidade da obra de Andersen e Verne e a impor-tância que hoje em dia a sua leitura continua a ter, como ficou bem visível com a repercus-são que as manifestações culturais que as efemérides com eles relacionadas tiveram, quer nos seus países de origem, quer mesmo a nível internacional.
Em Portugal, relativamente a J. Verne, podem referir-se as exposições organizadas pelo Museu da Imprensa (Porto), pela Biblioteca Nacional e pela Biblioteca Pública de Braga, a edição de alguns dos seus títulos mais significativos pelo “Público” (colecção Planeta Verne), a publicação do estudo “Júlio Verne: da ciência ao imaginário” pelo Círculo de Leitores e os dossiers que lhe dedicaram alguns jornais e revistas de grande circulação.
Andersen e Verne pertencem hoje, por direito próprio, ao património literário da humani-dade e a sua leitura e estudo deve continuar a merecer a nossa atenção e necessária divulgação.
3. Este número sai com apreciável atraso, o que ficou a dever-se à demora da confirma-ção do efectivo apoio do IPLB.
De qualquer modo, pelo facto apresentamos as nossas desculpas, dirigidas não só aos nossos generosos e amigos colaboradores como também aos (im)pacientes leitores que de há muito vêm reclamando a saída do boletim.

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>> Editorial boletim nº 6
Dezembro 2004
Henrique Barreto Nunes

O Instituto Português do Livro e da Biblioteca entendeu que este boletim merecia o seu apoio e assim, durante os próximos 3 anos, vai garantir o pagamento da sua impressão e a sua distribuição através da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas.
Na verdade o IPLB considera que, entre as suas missões, uma das principais será a da criação e a consolidação dos hábitos de leitura dos portugueses, tendo em especial atenção o público infanto-juvenil, através de projectos e acções que envolvam as comunidades locais e regionais e nessa perspectiva apoia projectos e iniciativas que promovam um maior conhecimento das obras e autores, constituindo um efectivo estimulo à prática da leitura.
Pensamos que é inquestionável que o CRILIJ e o seu boletim cumpre aqueles objectivos, procurando articular a sua acção formativa e informativa com a divulgação e valorização do excelente trabalho de animação cultural promovido pelas redes de bibliotecas públicas e escolares, não descurando o papel fundamental que as novas tecnologias hoje irrecusavel-mente desempenham, em especial no acesso à informação e ao conhecimento.
Por todas estas razões, agradecendo o apoio justo que a partir de agora nos será conce-dido, apenas nos comprometemos em prosseguir ainda com maior determinação, sentido de responsabilidade e tanto quanto possível criativamente com os objectivos que desde o início desta aventura nos animam.
2. Com este número do “Solta Palavra” procuramos evocar a influência primordial que a obra de H. C. Andersen e Julio Verne teve no despertar do gosto e mesmo da paixão pela leitura nos públicos mais jovens, de há muitas gerações a esta parte.
Confessamos que não adregamos atingir a totalidade do desafio que foi lançado: falharam algumas colaborações, outras revelaram-se difíceis de obter, não foi totalmente conseguida a realização das entrevistas com “velhos” e apaixonados leitores de Julio Verne que tentamos fazer, da qual restou uma pálida amostra que decidimos incluir no boletim.
Fica, de algum modo, assinalada a perenidade da obra de Andersen e Verne e a impor-tância que hoje em dia a sua leitura continua a ter, como ficou bem visível com a repercus-são que as manifestações culturais que as efemérides com eles relacionadas tiveram, quer nos seus países de origem, quer mesmo a nível internacional.
Em Portugal, relativamente a J. Verne, podem referir-se as exposições organizadas pelo Museu da Imprensa (Porto), pela Biblioteca Nacional e pela Biblioteca Pública de Braga, a edição de alguns dos seus títulos mais significativos pelo “Público” (colecção Planeta Verne), a publicação do estudo “Julio Verne: da ciência ao imaginário” pelo Círculo de Leitores e os dossiers que lhe dedicaram alguns jornais e revistas de grande circulação.
Andersen e Verne pertencem hoje, por direito próprio, ao património literário da humani-dade e a sua leitura e estudo deve continuar a merecer a nossa atenção e necessária divulgação.

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>> Editorial boletim nº 5
Henrique Barreto Nunes

De acordo com a introdução através da qual a BAD – Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas divulgou um Manifesto em favor do empréstimo público, a Comissão Europeia, a 16 de Janeiro de2004, decidiu pedir formalmente informações a Espanha, França, Itália, Irlanda, Luxemburgo e Portugal no que se refere à aplicação a nível nacional do direito de comodato público harmonizado nos termos da directiva 92/100/CEE relativa ao direito de aluguer, ao direito de comodato e a certos direitos conexos aos direitos de autor em matéria de propriedade intelectual. Esta decisão proveniente dos burocratas imbuídos pela ideologia neo-liberal que dominam alguns serviços da União Europeia produziu tremendas preocupações no mundo bibliotecário e culto dos países afectados porque, dito de uma maneira brutal, o que se pretende é que as bibliotecas, quer sejam públicas, escolares, universitárias ou outras, passem a cobrar uma taxa pelo empréstimo dos livros e outros documentos, que até agora têm disponibilizado gratuitamente a todos os cidadãos, a toda a comunidade. Põe-se assim em causa, de uma maneira irresponsável, um princípio universal consagrado pelo “Manifesto da UNESCO sobre Bibliotecas Públicas” e até agora ciosamente respeitado por todos os países que o subscreveram.
As reacções não se fizeram esperar nos países afectados: em Portugal, a BAD divulgou o referido manifesto, transformado numa petição a circular na Internet que já reuniu milhares de assinaturas. O presidente do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas manifestou a sua enorme preocupação em artigo publicado no “Expresso” em 5 de Junho de 2004; José Manuel Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Escritores, anunciou a sua total discordância com a medida anunciada; no Dia Mundial do Livro e no Dia Internacional do Livro Infantil inúmeros bibliotecários e professores, escritores e gente de cultura deram conhecimento público da sua natural indignação.
Na Espanha, muitas bibliotecas públicas e municipais mobilizaram-se expressamente para, através de actividades de grande criatividade e impacto junto da população, com larga participação de jovens leitores, alertarem quanto aos perigos de tal proposta; vários escritores expressaram a sua inquietação; a revista “Educación y Biblioteca” dedicou o seu nº 40 (Março de 2004) ao tema, dando-lhe um grande destaque noutros números, divulgando manifestos e posições diversas, entre as quais as de 400 professores universitários.
Na Itália e em França realizaram-se jornadas de debate, manifestações públicas, etc, acompanhadas com grande atenção pela comunicação social e reforçadas por artigos de opinião de intelectuais de renome.
Não temos conhecimento da repercussão que no seio da União Europeia tais reacções terão provocado, mas é provável que a dimensão destas manifestações e o seu impacto na opinião pública tenham obrigado os obtusos cérebros que congeminaram tão injustificada medida a reflectir sobre as suas consequências nefastas.
Em Portugal, não obstante o papel que as bibliotecas públicas e escolares têm esforçadamente protagonizado na criação de hábitos de leitura e na promoção do livro, este bem essencial ainda não se encontra fortemente enraizado nas práticas culturais da população.
Razões que o justificam são muitas, algumas bem longínquas e até agora inultrapassáveis, como já referi noutras ocasiões.
Mas o que é certo é que as bibliotecas públicas e escolares, apesar do investimento do Estado e das autarquias e do esforço abnegado que tem sido feito pelos seus profissionais e pelos professores, se debatem com múltiplas dificuldades e que os índices de iliteracia na sociedade portuguesa apresentam níveis alarmantes.
Se a taxa da União Europeia for efectivamente aplicada, será nos cidadãos e nos estudantes com mais dificuldades no acesso ao livro que ela irá mais fortemente incidir, ou porque serão obrigados a pagar pela sua utilização ou porque, se as bibliotecas assumirem a responsabilidade da sua cobertura, tal medida irá repercutir-se na diminuição de aquisições bibliográficas, com claro prejuízo para os leitores e utilizadores desses equipamentos, que verão a oferta reduzida.
Nós, os que amamos os livros e conhecemos a importância da leitura nas nossas vidas – leitura que tanto pode ser necessária, como útil, criativa ou simplesmente agradável – devemos estar atentos a estas manobras e mobilizar-nos em sua defesa, se preciso for.
O livro livre nas bibliotecas é um direito inalienável, que devemos defender com todas as nossas forças e imaginação.

Nota- O Boletim do Crilij cresceu e ganhou o direito a ter nome próprio. A partir de agora passará a chamar-se SOLTA PALAVRA

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>> Editorial boletim nº 4
Henrique Barreto Nunes

Como já escrevi noutra ocasião, entendo e acredito que o livro ainda continua a ser, para todas as idades, para quase todos os estratos sociais, o mais importante meio de conservação e de transmissão do conhecimento e do saber e, acima de tudo, uma privilegiada – para mim a principal – forma de acesso à criação literária.
É certo que os novos suportes de informação e as novas tecnologias permitem um fácil acesso e uma rápida comunicação dos conteúdos dos documentos tradicionais e da informação mas, não substituindo o livro, conduzem a um evidente comodismo na pesquisa e na elaboração de um pensamento próprio, de que as crianças e os jovens estudantes, se não forem bem orientados (e ainda há poucos que os saibam conduzir neste fascinante mas complexo universo do ciberespaço), sofrerão os efeitos mais nefastos. E isto sem sequer falar dos perigos da info-exclusão.
Por outro lado, o aparente fracasso do livro electrónico (e-book), reforça o sentimento de que o livro, tal como o conhecemos e amamos, ainda tem a sua sobrevivência assegurada durante muitos anos.
Assim a utilização que dele fazemos e a leitura como elemento vital da sua existência vão certamente garantir a sua sobrevivência.
Mas onde estão os livros, que livros podemos conhecer, ler e seleccionar, sobretudo tendo em conta os destinatários a quem o CRILIJ se dirige?
Apesar de as estatísticas portuguesas relativas à edição de livros sofreram da falta de dados fiáveis, como resultado da dissidência verificada na Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, que conduziu a criação da União de Editores Portugueses, o que é evidente é que no nosso país se editam mais de 11000 títulos por ano.
E mais importante para nós é sabermos que a edição para crianças e jovens ocupa o 2º lugar do número de títulos publicados anualmente por categoria (cerca de 2300 em 1999), tendo aumentado consideravelmente o volume de vendas (mais de 100%) nos últimos anos de que conhecemos estatísticas.
Pois bem, como é que os pais e educadores, professores e bibliotecários podem ter acesso à informação relativa a esse já apreciável número de títulos que todos os anos, certamente com tendência para aumentar, saem dos prelos portugueses?
Como é que podemos conhecer o que publica cada editora, como é que nos podemos orientar nesse conjunto quase desconhecido de livros que diariamente nos é proposto?
As fontes de informação relativas à edição portuguesa são escassíssimas.
É certo que as editoras promovem os seus títulos, não só recorrendo aos catálogos e boletins bibliográficos tradicionais, como também algumas destas já se socorrem do correio electrónico (e neste domínio devo referir o trabalho que a “Campo das Letras” realiza)
Porém não há nenhum boletim bibliográfico que mensalmente, de uma forma sistemática e actualizada, nos dê uma visão global do que se edita (o boletim “Livros de Portugal”, da APEL, que embora irregularmente ia cumprindo essa missão, não se publica desde 1998!)
Do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, que durante algum tempo publicou uma bibliografia essencial para as bibliotecas públicas, com volumes dedicados à literatura para crianças e jovens, tal como aliás também o fez o Gabinete de Redes de Bibliotecas Escolares, não se conhece qualquer publicação que preencha aquela lacuna.
A imprensa periódica raramente dedica atenção a estes livros, embora lhes faça por vezes uma brevíssima referência nas novidades do trimestre. Mas quer no “Jornal de Letras”, quer em “Os meus livros” escassas são as páginas ou recensões que são dedicadas à edição para os mais novos.
Resta a “Malasartes”, de que saudamos a saída do nº 11 (Nov. 2003), a qual conseguiu assegurar o milagre da sobrevivência com uma qualidade gráfica e um acreditado núcleo de colaboradores, que José António Gomes dirige com uma mão segura e conhecedora. Nesta revista, em cada número, são feitas diversas recensões e é divulgada uma pequena lista de livros recentes.
Mas a “Malasartes”, tal como este boletim, infelizmente só pode sair duas vezes por ano, e por essa razão a informação e a crítica saem com algum atraso, que não responde às necessidades imediatas das bibliotecas e escolas.
Voltamos à questão inicial: como podemos conhecer com regularidade e actualidade, quase diria em cima da hora, os numerosos títulos (alguns de qualidade duvidosa), quer literários, quer de divulgação destinados aos mais novos, que são publicados no nosso país?
Esta informação é essencial para organizarmos as nossas bibliotecas, para seleccionarmos as nossas compras, para apoiar as nossas sugestões de leitura.
É um desafio que daqui lançamos, tanto às instituições oficiais (com o IPLB à cabeça, embora a Biblioteca Nacional tenha a obrigação de publicar a bibliografia nacional), quer às associações de editores, que deveriam unir esforços para atempadamente darem conhecimento acerca do que se publica neste país. E com os recursos electrónicos de que hoje dispomos tal não me parece difícil.
Seria um serviço inestimável, de que todos lucrariam e se revelaria fundamental para a promoção do livro e da leitura. 

P.S. O Boletim do CRILIJ deve a sua sobrevivência ao apoio solidário e generoso da Fundação Calouste Gulbenkian à qual, na pessoa da Dra. Maria Helena Melim Borges, exprimimos toda a nossa gratidão.

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>> Editorial boletim nº 3
Henrique Barreto Nunes

Os meninos de Bagdad ou Bassorá
continuarão a ouvir os contos das mil e uma noites
para se libertarem da morte?

As crianças americanas ou inglesas
que frequentam a hora do conto nas suas bibliotecas públicas
ainda escutam histórias deliciosas?

Qual será,
depois dos meses sinistros de Março e Abril,
o imaginário, o maravilhoso, o fantástico
de todos esses seres em formação?

Certamente invadido
pelo som das bombas e sirenes,
pelo sangue, pelos gritos,
pelo espanto, pelo terror,
pelas imagens cruéis das destruições
ou da selvajaria tecnológica,
pelas notícias que (não) chegam
da morte inútil
ou das vidas despedaçadas.


O Manifesto da Unesco sobre Bibliotecas Públicas divulgado pela primeira vez em 1949, surgiu na sequência da 2ª Guerra Mundial e proclamava a sua confiança na biblioteca pública como força viva ao serviço da educação, no desenvolvimento da compreensão internacional e, consequentemente da paz.
No “Manifesto” revisto em 1994 a Unesco continua a confiar na biblioteca pública
como agente essencial para a promoção da paz e do bem estar espiritual nas mentes dos homens e das mulheres.
Os generosos objectivos de todos aqueles países que subscrevem e deviam cumprir o “Manifesto da Unesco” parece que não encontram o eco necessário nalguns para quem o exercício da força das armas, o poderio económico e a arrogância servem de pretexto para intervenções militares que a razão e o humanismo condenam.
Mas nós, bibliotecários e todos quantos consideram o livro como um valor fundamental e imprescindível, nós enquanto construtores de utopias pensamos como
Marguerite Yourcenar, que um dia escreveu: fundar bibliotecas era ainda construir celeiros públicos, acumular reservas contra um inverno de espírito que, por certos indícios, infelizmente se aproxima.
E então, como Ruy Belo, ainda vamos acreditar que e tudo era possível.Era só querer.

Braga, 17 de Abril de 2003

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>> Editorial boletim nº 2
Henrique Barreto Nunes

O Instituto de Educação e Psicologia da Universidade do Minho organizou recentemente um seminário sobre “as competências de leitura dos estudantes portugueses” que teve por base o Relatório PISA 2000 (1), de cujo documento de apresentação retiramos alguns dados significativos.
O PISA 2000 é um programa internacional de avaliação das competências de leitura dos jovens estudantes (de 15 anos de idade) de 32 países industrializados, grande parte deles membros da OCDE.
Tal como infelizmente se verifica noutras estatísticas internacionais (como é o caso das práticas culturais ou dos hábitos de leitura) Portugal ocupa as últimas posições, apresentando os jovens portugueses um desempenho modesto.
De acordo com o relatório referido 52% dos estudantes inquiridos situam-se em níveis de avaliação muito baixos, enquanto 10% revelam ter sérias dificuldades em usar a leitura como um meio efectivo de construção de conhecimentos.
Os organizadores do referido seminário constataram que “pela natureza dos textos em causa [utilizados no inquérito] e das tarefas solicitadas, fica evidente a inadaptação das competências manifestadas pelos novos estudantes às solicitações de um mundo cada vez mais complexo e exigente” o que lhes acarretará sérios problemas quando tiverem que enfrentar e competir num mercado de trabalho global, ou pelo menos à escala da União Europeia.
De entre as diversas conclusões do relatório, cuja leitura aconselhamos vivamente, destacamos o seguinte:

Na literacia de leitura verificou-se haver diferença entre os perfis das famílias dos alunos com alto nível de literacia e os das famílias dos alunos com baixo nível de literacia. Os melhores resultados do PISA tendem a identificar-se com os alunos provenientes de famílias:
(a) em que os recursos educacionais bem como os bens culturais em casa são elevados. De notar que, se contrastarmos o nível socioeconómico dos dois grupos, a diferença é mais pequena, embora significativa;
(b) em que é maior a frequência com que os pais interagem com os filhos, em actividades tais como a discussão de temas sociais, de livros e filmes ou, simplesmente, falando com eles.
Se é assim evidente que a literacia da leitura nasce, se começa a criar em casa e depois naturalmente se constrói e consolida na escola, essa capacidade pode encontrar um apoio, um prolongamento imprescindível nas bibliotecas.
Voltamos assim a insistir no papel decisivo que as bibliotecas públicas podem desempenhar no combate à iliteracia, no combate à exclusão social que dela decorre.
No caso das famílias com acentuados deficites culturais (pelas mais variadas razões, por vezes bem longínquas), as bibliotecas devem contribuir para minorar tal situação através do empréstimo domiciliário de livros e outros documentos, da promoção de actividades de animação e extensão cultural (porta aberta à frequência e habituação às práticas culturais) e da possibilidade de utilização gratuita de equipamentos informáticos e multimédia.
O CRILIJ e o seu boletim pretendem contribuir para que os professores disponham de mais armas, de mais estratégias para enfrentarem este combate interminável. Assim, se na secção “Bibliotecando” se descrevem e exemplificam experiências de sucesso, na rubrica “Em foco” procura-se dar a conhecer os autores mais representativos da literatura destinada às crianças e jovens.
Esta rubrica e esta intenção são naturalmente completadas com os “Favoritos” onde se sugere e  incentiva a leitura de edições mais recentes destinadas àquele público que se pretende conquistar para a leitura.
Mas, de um modo ou outro, todas as secções do boletim apontam para tal objectivo, não esquecendo a importância que a utilização das novas tecnologias assume junto daqueles que se estão a preparar para enfrentar os desafios que a sociedade da informação e do conhecimento inexorável e desafiadoramente nos lança.

(1) Resultados do estudo internacional PISA 2000. Lisboa : Ministério da Educação, 2001

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>> Editorial boletim nº 1
Novembro de 2001
Henrique Barreto Nunes*

Em 1997, corolário de uma necessidade há muito sentida, foi finalmente definida entre os Ministérios da Educação e da Cultura uma política de criação da Rede de Bibliotecas Escolares, que está progressivamente a colmatar uma tremenda lacuna desde sempre existente no sistema escolar português.
Contando com a colaboração das bibliotecas públicas nas localidades onde começaram a ser instaladas ou profundamente remodeladas, as novas bibliotecas escolares, encaradas
Como centros de recursos básicos do processo educativo, terão um papel central “em domínios como a aprendizagem da leitura, a literacia, a criação e o desenvolvimento do
Prazer de ler e a aquisição de hábitos de leitura, as competências de informação e o aprofundamento da cultura cívica, científica, tecnológica e artística”.
No início deste ano encontravam-se já integradas na Rede de Bibliotecas Escolares 746 escolas, tendo sido feito um investimento de cinco milhões de contos, cujos resultados
começam já a ser evidentes e o impacto gratificante e mobilizador.
É evidente que para o êxito deste projecto e para a concretização plena dos seus nobres objectivos são necessários infra-estruturas, equipamentos e colecções documentais em
Variados suportes mas, antes de tudo o mais, será decisivo o papel dos professores.
A todos os professores compete a missão de tentar transformar a biblioteca num espaço indissociável da vivência quotidiana de cada escola.
E, se para tal é imprescindível que pelo menos alguns possuam uma formação específica, em especial no domínio das técnicas relacionadas com as ciências documen-
Tais e as novas tecnologias, a efectiva implantação da biblioteca escolar depende também da “militância” generosa dos professores na criação e manutenção de hábitos de leitura
nas crianças.
Nesta perspectiva o “Boletim do CRILIJ” pretende ser um instrumento de trabalho destinado a apoiar aqueles professores que procuram sair da rotina e do comodismo e anseiam também formar leitores, futuros cidadãos para quem o livro e a leitura, qualquer que seja o seu suporte, constituam uma componente essencial das suas vidas.
Neste número procuramos seguir a estrutura base do primeiro boletim, contando com a colaboração amiga de credenciados conhecedores da literatura para crianças, que analisam diversos aspectos da obra de Luísa Ducla Soares, a escritora em foco de quem alguns títulos aqui são apreciados.
Mas surgem igualmente novas secções, como contextos, da responsabilidade de um
Bibliotecário que é conhecedor profundo da problemática do livro e das bibliotecas em Portugal, ou opinião, em que se procurarão abordar temas da actualidade relacionadas
com os interesses do CRILIJ.
A rúbrica bibliotecas abrir-se-à ao relato de experiências conseguidas no domínio da
Organização das bibliotecas escolares ou da dinamização da leitura, esperando-se que em
novas tecnologias surjam sugestões ou reflexões sobre a utilização dessas ferramentas
que hoje já ninguém pode ignorar ou dispensar.
Enfim os favoritos continuarão a chamar a atenção para a actividade editorial dedicada às crianças, cumprindo assim os objectivos primordiais do CRILIJ.
Que o livro, depois de lido e apreciado, passe de mão em mão como uma bola ou um archote, é um sonho que sempre procuraremos concretizar.

*Director da Biblioteca Pública de Braga - Universidade do Minho