Ana de Castro Osório

Nascida em Mangualde em 1872, Ana de Castro Osório faleceu em Lisboa em 1935. É um caso singular na literatura infanto-juvenil portuguesa, dados os circunstancialismos da época em que viveu tendo em conta a sua condição de mulher e a incursão pioneira na escrita desta natureza.
A partir dos contos orais ouvidos na sua terra natal, a um pastor e a uma rendeira, com o título: Para as crianças, publicou em fascículos, a primeira de diversas séries de contos tradicionais. Estava-se no ano de 1897. Casada com Paulino de Oliveira, poeta e cônsul de Portugal no Brasil, aí viveu, na cidade de S. Paulo, de 1911 a 1914, desenvolvendo actividades editoriais, literárias e pedagógicas, intervindo na dinamização do intercâmbio luso-brasileiro. Anteriormente, em Portugal, já se distinguira por atitudes culturais e cívicas, no dealbar da primeira República, com incidência na defesa dos direitos da mulher. Traduziu Grimm e Andersen entre outros escritores estrangeiros. Das suas criações literárias infanto-juvenis salientam-se os títulos; “De como Portugal foi chamado à guerra”, “Os dez anõezinhos da Fria Verde-
-Água”, “Histórias maravilhosas da tradição Popular Portuguesa”, “Viagens aventurosas de Felício e Felizarda ao Pólo Norte”, “Viagens aventurosas de Felício e Felizarda ao Brasil”.

Viagens aventurosas de Felício e Felizarda ao Brasil
Lx., Instituto Piaget, 1998

Organizado por Fernandes Vale, investigador do Instituto Piaget, e ilustrado por A. Jourdain, este volume retoma os protagonistas da viagem ao Pólo Norte, afinal dois bonifrates que a viúva Teresa, de Mangualde, criara entre muitos outros como ganha-
-pão familiar. Esses dois bonecos tinham chegado a casa de Pedrito, oriundo de uma família abastada, pelas mãos de Teresa a quem a mãe do garoto prometera vestir de um modo chamativo para serem vendidos com maior rapidez. Acontece que Pedrito partira uma perna, precisamente na altura das festas de Nossa Senhora do Castelo, o orago da freguesia. É por esse motivo que retido em casa com a mãe, e excluído da romaria, nascem as histórias desses dois bonecos na voz da mãe. Baptizados com os nomes de Felício e Felizarda, inventam-se peripécias inauditas em viagens imaginárias pelo mundo.
Aliando informação, formação e divertimento, Ana de Castro Osório constrói um imaginário de compromisso com o Real, ao misturar bonecos e figuras humanas. Se, no primeiro volume, são as águas geladas da Noruega, os pescadores portugueses que as procuram na pesca do bacalhau e da baleia, as histórias locais, os esquimós, o Pólo Norte que constituem o travejamento da narrativa, nesta viagem ao Brasil, bem mais dentro da vivência do escritor, que por lá estanciou, as aventuras surgem mais enriquecidas por uma pertença por adopção que se manifesta numa subjectividade de vínculo. De Pernambuco à Baía, de São Paulo à Amazónia, no interior fazendeiro, o Brasil desvenda-se através da sua história, das suas gentes, das suas lendas, da sua fauna e da sua flora.
Publicado aproximadamente há um século de distância, a narrativa é, a seu modo, actualíssima e fomentadora de uma maior entendimento entre dois povos, às vezes de costas voltadas, esquecendo que a língua é uma traço unificador que aproxima culturas e entendimentos.

 

Manuela Maldonado