A Boneca Palmira
Araújo, Matilde Rosa Lisboa: Ed. Eterogémeas, 2007

 

 

Tratando-se de um álbum, o código icónico supera o código escrito, entretecendo-se, porém.
A propósito de três objectos que, em princípio, deveriam ser usufruídos pelos donos, acontece que eles são relegados ao esquecimento, num espaço fechado. É assim que Matilde Rosa Araújo constrói uma narrativa com muito sentido: a boneca Palmira, a almofada cor de mel e o espanador azul.
Na verdade, Palmira nunca foi nome de boneca e ainda mais destoa porque ela é de porcelana!...
Encontra-se reclinada numa almofada fofa, cor de mel, numa sala muito requintada, com reposteiros, retratos, bibelots, sofás de veludo, onde se abrem as janelas só de vez em quando. Raramente frequentada, as duas personagens viram peças de museu, a que se vem juntar um espanador azul de penas que a avó Raquel esqueceu numa das suas incursões de combate furioso ao pó. Aproveitando uma janela aberta, os três amigos decidem viajar: o espanador é a vela, a almofada é o lastro e Palmira é a ocupante do veículo mágico. E o mundo abre-se à sua passagem!
A ilustração de Gémeo Luís e o design de Luís Mendonça, o alter ego e o ego de um só, fazem uma proposta vertiginosa de viagens em que as volutas cinésicas se entrelaçam, ora abraçando ora repelindo silhuetas representativas de seres animados e inanimados.
E o cromatismo lá está, nas páginas, em toda a sua simbologia: o azul da evasão e do sonho; o vermelho da raiva e da paixão; o verde da esperança; o rosa da inocência; o amarelo do desprazer expectante; o laranja da persistência, espectro que na última página aparece em fitas autónomas, convidando duas silhuetas a atingi-lo com uma escada. Enfim, o espectro da afectividade, da imaginação, da inteligência, dos sentidos, constituindo o que, para cada um, se chama vida, usufruída de forma plena ou imperfeita.

 

A partir dos 5 anos

Manuela Maldonado

 

Biobibliografia

Matilde da Rosa Araújo nasceu em Lisboa e foi nessa cidade que se licenciou em Filologia Românica na Faculdade de Letras, em 1945.
Professora e escritora é do intercâmbio entre essas duas valências que surge a atmosfera poética dos seus livros de um notável sensorialismo sinestésico. Como autora de livros infanto-juvenis estreou-se com “O Livro da Tila” em 1957, embora já tivesse produzido outros títulos para adultos. Desde “O palhaço verde”, passando pela “História de um rapaz”, por “O sol e o menino dos pés frios”, por “O capuchinho cinzento” e tantos outros, “a sua obra para crianças e jovens é das mais importantes da literatura portuguesa deste século” como diz José Jorge Letria. Foi a primeira vencedora do Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças em 1994. Nesse ano, a Editora Civilização homenageou-a no seu 3º colóquio sobre “A literatura infanto-juvenil e o ensino”. Em 2004 a Sociedade Portuguesa de Autores atribuiu-lhe o Prémio Consagração de Carreira.