A Chuva Pasmada
Couto, Mia – Lisboa: Caminho, 2004

 

Contado na primeira pessoa por um adolescente negro, apresenta-se o texto num contínuo, ininterrupto, ao jeito da técnica da oralidade tão adequada à perspectiva espácio-temporal da atmosfera narrativa – África. No entanto, surgem de quando em vez, graficamente, frases em maiúsculas incrustadas na tessitura textual, que fazem a ponte temporal entre o que foi e o que vai ser.
Envolvida por uma cosmogonia africana onde a Natureza é a matriz vivencial, a narrativa espraia-se pela história de uma família constituída por avô, o patriarca, pai, mãe, um filho adolescente e uma tia solteirona. E a chuva pasmada, suspensa, é a metáfora reveladora desta família que não ousa interpelar o destino: o avô, mirrando na varanda, ao lado da cadeira da companheira defunta, não fez interiormente o seu funeral; a mãe, solitária, que viu partir todos os filhos, excepto o mais novo, ficou solteira do companheiro lá longe nas minas, nos confins do horizonte; o pai volta e sente-se um estranho; a tia solteira, sempre em busca de marido, sufoca nas mãos de um desejo que mata por asfixia.
É neste cenário que surge uma chuva suspensa, não cai, a não ser em pequenas gotas ou “chuvilhos”, o símile das pequenas vidas das personagens que se confinam ao quotidiano, sem procurar o rio da vida que flui para novas perspectivas.
É neste contexto familiar entrosado numa cosmogonia africana que o rio da região vai ser o local libertador.
Antes do encontro pessoal com o rio, a primeira figura a questionar o destino será a mãe, que imputa ao patrão branco de uma fábrica poluente o fenómeno da chuva pasmada. De conluio com o filho adolescente, vai ao encontro do branco e é o seu odor africano que mata o desejo do homem por uma negra tão bonita. As conversas repetir-se-ão várias vezes, sem nada acontecer. Mas, estas surtidas da mulher, os cochichos com o filho, despoletam no pai, sempre acatador das circunstâncias, um ciúme invasivo, fazendo-o sair do “pasmo”. Simultaneamente o avô abre-lhe os olhos dizendo que o verdadeiro motivo da sua desistência era o olhar para o seu umbigo, unicamente. E, assim, é um marido decidido que se dirige à fábrica para se inteirar de ocorrências que a suspeição envolve em factos delituosos. Como nada de delituoso ocorrera, a casal, abraçado, lança-se por um barranco abaixo, metáfora de um novo nascimento relacional, difícil e doloroso, porém deslumbrador.
O avô, ao dizer que “A velhice é uma decisão”, vai exigir ser posto num jangada no grande rio para a última viagem, ao encontro da mulher amada.
A tia, ilibada de culpas que não tem, pelo pai, volta da ponte sobre o rio com intenções de vida com futuro.
Por seu lado, o adolescente consegue compreender o pouco carinho materno, porque a progenitora viveu na ausência do marido e dos outros filhos.
Com a seca prolongada, a fábrica pára, sem energia para as turbinas, e o ecossistema restabelece-se. A chuva cai e encontra o caminho do Rio…
Toda a escrita de Mia Couto escorre poesia, quer pelo ritmo frásico quer pelos neologismos criativos de cariz fonético, ancorada numa visão do primordial.
A ilustração de Danuta Wojciechowska supera todas as expectativas, ou não se trate de uma ilustradora de grande nível, pela selecção dos motivos icónicos representativos das sugestões poéticas do texto. E essas sugestões são configuradas na visão antropomórfica das mitologias africanas a que a selecção cromática confere a realidade desejável.

 

A partir dos 14 anos

Manuela Maldonado

 

Biobibliografia:
António Emílio Leite Couto nasceu na Cidade da Beira, em 1955, filho de emigrantes portugueses.
Mia é alcunha dada pelo irmão.
Formou-se em Biologia.
Entre os seus livros encontram-se: “Cada Homem é uma Raça”, “Terra Sonâmbula”, “O último voo do Flamingo”.
Pelo conjunto da obra recebeu o prémio Vergílio Ferreira.