A girafa que comia estrelas
Agualusa, José Eduardo - Lx: D. Quixote, 2008

Este escritor tem vindo a ocupar um espaço cada vez de maior importância não só na ficção nacional como na internacional, nomeadamente com os seus romances: O Vendedor de passados, As mulheres de meu Pai, Barroco Tropical. Analista perspicaz a construir mundos ficcionais eleva-se acima do documento, na descolonização e na problemática dos novos países africanos emergentes, entre outras temáticas.

A sua incursão na literatura infanto-juvenil aconteceu no ano 2000, com um volume intitulado “Estranhões e Bizarrocos”, ilustrado por Henrique Cayatte. Quer o texto escrito quer o icónico foram premiados pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e pela Gulbenkian. O segundo título: A girafa que comia estrelas, saído em 2005, já vai na 6ª edição.

Com uma grande economia de personagens actuantes, a girafa Olímpia e Dona Margarida, a galinha-do-mato, constrói-se uma narrativa que participa de alegoria e de fábula. O nome da girafa é significativo já que aponta para um espaço divino, e o da galinha para uma personagem madura e instalada.

Olímpia vive acima da terra pela sua estatura e pela procura de questões do transcendente como achar o destino das pessoas depois da morte e o lugar dos anjos. De cima do morro mais alto da savana, fura as nuvens e encontra o firmamento. Alimenta-se de estrelas que sabem “a pêssego”. É uma perseguidora de sonhos, abandonando a savana repetitiva do quotidiano. Mas um dia encontra uma galinha-do-mato com o ninho feito numa nuvem, ela também, a seu modo, fugindo ao repetitivo, embora a sua linguagem seja tautológica porque desprovida de inteligência e de desejo. Se a girafa é uma personagem em movimento, a galinha é estática e deixa-se ir ao sabor dos ventos. Apesar de viver nas nuvens, Olímpia apercebe-se que a savana secara por falta de chuva. Procura a sua galinha-do-mato, que o vento levara para longe e é esta, com uma sabedoria existencial que a aconselha a reunir esforços soprando as nuvens para a savana e a espirrar: as nuvens tremem e… chove.

E o final é de fábula:”È por isso que, até hoje, as girafas são amigas das galinhas-do-mato”.

A ilustração de Henrique Cayatte privilegia o azul, em várias tonalidades, significante do sonho, da irrealidade e do universo estelar, que funciona como lugar de ponta da infinitude. Interessante é a faixa azul que corta as páginas do texto, reforçando o lá em cima e o cá em baixo do texto. O buraco negro do Universo foi deixado para a representação da cidade dos homens que vivem empilhados em arranha-céus sem olharem as estrelas.

A partir dos 7 anos

Manuela Maldonado

 

O Autor

José Eduardo Agualusa nasceu no Huambo em 1960. Vive entre Lisboa e Luanda, tendo iniciado a sua carreira literária em 1988. Com um romance histórico – A conjura. É autor de romances, contos, crónicas, peças para teatro, reportagens e três livros para crianças.