A Guitarra da Boneca.
Araújo, Matilde da Rosa - Lisboa, Horizonte, 1983.

 

A escrita poética deste livro como em vários outros estrutura-se na existência de rimas e ritmos que confluem e se interseccionam de modo a soar como cantiga, como balada ou lengalenga, neste último caso com recurso a nonsense.
Boneca, num conceito restrito, é um brinquedo representando uma figura no feminino. Guitarra é um instrumento de cordas de combinações múltiplas. Unindo os dois conceitos, por extensão, o livro ocupa-se das várias facetas desse sujeito/objecto que é a criança e o seu mundo primordial tão desfasado do dos adultos.
Assim, há a criança que está à janela, ao sol e à chuva, com perigo de queda – é uma excluída dos afectos; a criança/objecto que se leva para mostrar aos outros, presa numa redoma e ninguém repara no mal que lhe fazem os sapatinhos de verniz; a criança trapalhona que mal passou a fase de lalação, mas quer fazer-se entender; uma outra cheia do amor de mãe que veste um avental de riscado, mas é dourado, cor quente, e “tem olhos negros de veludo molhados”; há ainda outra que vê sóis e luas na face da mãe e sente seda nos seus seios, provavelmente que a amamentaram.
No entanto, outras cordas tocam nesta música que são os jogos poéticos: o Sol no Castelo de Almourol; a Nau Luarenta, paráfrase da Nau Catrineta; a Gaivota em jeito de cantiga trovadoresca com refrão; a História Tontinha a partir de três nomes femininos terminados em – ina, Balbina, Carolina e a tia Firmina num ambiente em que se bebe chá da China e se procura fresco num leque do Japão.
Na verdade todo o livro é um poema sobre a criança e os seus ludismos.<br><br>A ilustração bem integrada no texto é de Evelina Coelho.

A partir dos 7 anos

Manuela Maldonado

 

O Autor

Matilde da Rosa Araújo nasceu em Lisboa e foi nessa cidade que se licenciou em Filologia Românica na Faculdade de Letras, em 1945.<br><br>Professora e escritora é do intercâmbio entre essas duas valências que surge a atmosfera poética dos seus livros de um notável sensorialismo sinestésico. Como autora de livros infanto-juvenis estreou-se com “O Livro da Tila” em 1957, embora já tivesse produzido outros títulos para adultos. Desde “O palhaço verde”, passando pela “História de um rapaz”, por “O sol e o menino dos pés frios”, por “O capuchinho cinzento” e tantos outros, “a sua obra para crianças e jovens é das mais importantes da literatura portuguesa deste século” como diz José Jorge Letria. Foi a primeira vencedora do Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças em 1994. Nesse ano, a Editora Civilização homenageou-a no seu 3º colóquio sobre “A literatura infanto-juvenil e o ensino”. Em 2004 a Sociedade Portuguesa de Autores atribuiu-lhe o Prémio Consagração de Carreira.