
A Ilíada de Homero contada às crianças e ao povo por João de Barros
Homero - Lisboa: Sá da Costa Editora, 2008
João de Barros, um grande pedagogo e escritor português do século XX, adaptou, entre outras obras, os poemas épicos de Homero e a Eneida de Virgílio, para as crianças e o povo, nas suas palavras, terem acesso a estes legados universais. E se a Odisseia e a Eneida narram a vida e as façanhas de Ulisses e de Eneias e, por isso, de mais fácil leitura, circulando nos currículos escolares, a Ilíada, porque assente noutros pressupostos, de leitura menos fácil, é pouco manuseada.
Deste facto nos dá conta João de Barros no prefácio deste volume, servindo-se, citando, das palavras do helenista Mário Meunier: este poema canta “a cólera de Aquiles e as suas funestas consequências”; “o que decorre do texto é uma tese moral – a épica expressão de uma alma que detesta a guerra, abomina a violência e odeia o exagero”. Pelo atrás enunciado se depreende que o trato com a “Ilíada” deve ser posterior ao dos outro poemas, numa faixa etária mais tardia e, por isso, mais madura.
Do rapto de Helena, rainha grega, por Paris, príncipe troiano, nasce uma guerra cruenta durante 10 anos.
João de Barros, num discurso em prosa, cheio de considerações judiciosas, com alguma linguagem afectiva, sobretudo interjeições, torna o livro de leitura fácil e agradável, ainda que o nível da escrita seja elaborado. Aqui e ali, entre aspas, surgem traduções de versos de Homero. No final do volume há uma achega preciosa, denominada “Epílogos que da Ilíada não constam”: são informações sobre o final da guerra de Tróia que não constam no poema. Refiro-me à morte de Aquiles por Paris, da preservação do seu corpo por Ajax e Ulisses, das honras militares nas exéquias do herói e do regresso à pátria dos gregos que restaram, excepto Ulisses, errante 10 anos no Mediterrâneo – esta matéria é incluída na Odisseia e narrada por Ulisses. Por outro lado, Eneias, um troiano, foge da cidade com o pai às costas, aporta a Cartago onde conta a Dido os acontecimentos – assunto do poema de Virgílio.
A ilustração de André Letria, a preto e branco, cumpre, com eficácia, a informação visualizada de determinadas personagens, lugares, costumes, no início de cada capítulo, muitas vezes sob forma simbólica, em que os elmos estão carregados de significação.
A partir dos 14 anos
Manuela Maldonado
| O Autor
João de Barros nasceu na Figueira da Foz em 1881 e faleceu em Lisboa em 1960. Pedagogo, cidadão e escritor proeminente na primeira república, da sua obra poética destacam-se três grandes colectâneas líricas: Terra Florida, Ansiedade, Ritmo de Exaltação. As adaptações de poemas clássicos surgem do alto conceito cívico de intervenção social, simplificando aos mais novos que frequentam a escolaridade ou aos menos letrados o convívio com grandes obras literárias. |