
A Menina de Olhos Cor-de-Chuva
Barradas, Margarida - Porto: Campo das Letras, 2008
Mesmo num mundo edénico como o que nos é apresentado neste volume, em que uma rainha justa e bondosa e súbditos honestos e trabalhadores enquadrados numa natureza pródiga, a infecundidade feminina é uma angústia. E é essa a dor da rainha sem descendentes. Então, bem à maneira das tragédias gregas, aparece um “deus ex-machina” na figura de uma velhinha num encontro fortuito com a soberana. Conta-lhe então a anciã da doença incurável da neta, agonizante numa cama de hospital. A rainha visita a criança e dessa conversa resultam melhoras imediatas na doente que prediz um reencontro nove meses depois. Como penhor da visita, fica uma rosa branca nas mãos da criança. A rosa branca é o selo de um pacto silencioso que resultará nove meses depois no nascimento de uma princesa. E, por isso, esta rosa é perene.
E no dia do nascimento real, a menina rompe a multidão, de rosa na mão, para reger, de um lugar alto, uma canção entoada colectivamente: “A Menina dos Olhos Cor-de-Chuva” – resultado da água fecundante…
Abigail Ascenso ilustrou figurativamente, privilegiando ema textura de tapeçaria, em diversas páginas; avantajando a Rainha como soberana no poder e reduzindo-a como burocrata afogada em papéis. No papel de mãe, a rainha e a princesa são remetidas ao tamanho corrente, mas o que se agiganta é a colcha da cama, o lugar de ternura como o interior do ninho dos passarinhos ou como o aconchego uterino. A capa e a contracapa oferecem os dois pólos interventivos do maravilhoso; a menina da rosa e a avó, que desencadeia todo o processo.
A partir dos 7 anos
Manuela Maldonado
| O Autor
Margarida Barradas nasceu em Angola, em 1948. Deu aulas de Inglês e Alemão, fez Teatro com os seus alunos. |