A rapariga que roubava livros
Zusak, Markus - Lisboa: Presença, 2008

 

Porque também na Alemanha, durante a segunda guerra mundial, quem não partilhasse as ideias nazis, embora uma minoria, sofreria represálias, estamos perante um livro que efabula esse lado dos acontecimentos.
Na contracapa lê-se: "Um livro sobre uma época em que as palavras eram desmedidamente importantes no seu poder de destruir ou de salvar".
A protagonista, Liesel, na pré-pubredade, é deslocada pela assistente social da sua zona, bem como o seu irmão mais novo para uma família de acolhimento, os Hubermann, na cidade de Molching, arredores de Munique. Esta deslocação deve-se ao facto de uma doença grave da mãe e do desaparecimento do pai, um comunista confesso, preso as ordens de Hitler. É difícil a integração da menina na casa de Hans e Rosa, já que chega sozinha devido ao falecimento do irmão durante a viagem num comboio idêntico aos que levam os judeus para os campos de concentração. O casal que a acolhe, de meia idade, vive sós, pois os filhos deixaram-no há muito, seguindo o seu rumo numa Alemanha dividida e faminta, a partir de 43.
Várias narrativas cruzam a principal, o crescimento de Liesel num país sujeito a tremendas restrições alimentares, a bombardeamentos constantes dos aliados, ao espectáculo deprimente de marchas judaicas pela cidade rumo aos campos de concentração, as actividades nazis obrigatórias etc, etc. Além de Hans que a protagonista considera um pai pela sua sensibilidade e ternura, cruzam o seu caminho duas outras figuras masculinas: Rudi, o dos cabelos cor de limão, o companheiro das brincadeiras adolescentes e Max, o pugilista judeu escondido pelos Hubermann devido a um pacto de amizade feito durante a primeira guerra mundial. Max torna-se o seu guia de interioridades, enquanto Rudi será o companheiro de exterioridades, não isento de uma certa atracção sexual da puberdade.
Inactivo pela força das circunstâncias, mas muito bom desenhador e escritor, o judeu recluso, nas horas vagas, vai escrevendo um livro sobre Liesel nas folhas de Mein Kampf tornadas brancas por força de tinta e nelas subvertendo o orgulho, o preconceito e o terror em ternura, amor e solidariedade.
E porque o título está no cerne da narrativa, ele não é mais que a síntese do gosto de Liesel pela leitura, apropriando-se em várias circunstâncias e de diversas maneiras do seus objectos de culto.
Sendo uma narrativa fechada, visto que, no pós-guerra, Liesel vai viver para a Austrália, casada com Max que reencontra depois da sua perda num campo de concentração, o curioso é que o narrador omnisciente e omnipresente é a própria Morte que assume uma perspectiva intemporal: "cansada de recolher almas, observa com paixão e fascínio a estranha natureza dos humanos". Além da divisão em capítulos, aqui e além destacam-se, a negrito, pequenos textos sintéticos exemplificativos ou do carácter das personagens ou complementares do narrado, sob forma de analepse ou prolepse.

A partir dos 13 anos

Manuela Maldonado

 

O Autor

Markus Zusak nasceu em 1975, na Austrália, filho de mãe alemã e pai austríaco. As memórias dos progenitores sobre a segunda guerra inspiraram este livro. É o seu quinto romance distinguido com importantes prémios internacionais. Inicialmente destinado à juventude, este livro tem conquistado leitores de todas as idades.