Aquela nuvem e outras
Eugénio de Andrade - Porto, Asa

 

Estávamos em Julho passado quando, num quiosque, tropecei num livro que imediatamente me fez parar – “Aquela nuvem e outras”*! Era mesmo! Estava ali uma nova edição de um dos meus livros preferidos! E ainda por cima, o meu neto pegou no livro, olhou para a capa e, seguindo com o dedito, o rabo do gato que se passava para a contracapa, disse,: “um gato…e uma estada gande”… Estava iniciada a sedução… Vamos comprá-lo. Em casa, a avó foi buscar à estante as outras edições da mesma obra. O olhar clínico do adulto ia começar, enquanto o neto se entretinha com a página da borboleta Leonoreta
Estamos perante três objectos substancialmente diferentes. E, no entanto, o material literário é exactamente o mesmo – a poesia que Eugénio de Andrade foi escrevendo “à medida que o Miguel ia crescendo diante dos meus olhos, e me ia pedindo uma história ou um poema.”
Esta colectânea de poemas é, certamente, já um clássico da nossa literatura para a infância. E é-o não só por serem poemas de Eugénio de Andrade, mas sobretudo porque nele encontramos a simplicidade, a magia e a graça da palavra que atrai qualquer jovem ouvinte/leitor para um encontro sedutor com a nossa língua. As rimas, as consonâncias e outros jogos poéticos aproximam mais os leitores jovens, os que ainda continuam com os ouvidos abertos “às músicas das palavras” e se sentem atraídos pelas “coisas da imaginação”. Por outro lado, nestes poemas estão também presentes alguns referentes da cultura popular e erudita do nosso património cultural – o “burro de Loulé”, “a borboleta Leonoreta”, a “joaninha de Lisboa” ou o “romance de D. João”, uma ténue ligação à infância do poeta e à sua experiência como leitor e sobretudo o uso assumido do “ritmo natural e português da nossa fala” que torna simples clara e luminosa esta poesia escrita maioritariamente em versos de “sete sílabas contadas”. É assim a genialidade dos artistas – parece ser tão simples… Frutos, Pêssegos, peras, laranjas, morangos, cerejas, figos, maçãs, melão, melancia, ó música dos meus sentidos, pura delícia da língua; deixai-me agora falar do fruto que me fascina, pelo sabor, pela cor, pelo aroma das sílabas: tangerina, tangerina.
E este poema, que sempre me fascinou, foi confrontado com uma outra arte – a pintura/ilustração de outros três artistas portugueses. Pego nos três livros na respectiva página com as ilustrações de Júlio Resende (1986), de Alfredo Martins (1999) e de Joana Quental (2005) e pergunto-me: ilustrar livros para crianças é? Não há dúvida que é interpretar, é sugerir, é inventar…é contribuir para tornar este objecto livro ainda mais apetecível …
Pois se na meia página da primeira edição referenciada, eu paro a olhar para uma folha em que uma aguarela muito suave me convida a olhar um menino deitado, fascinado por… (eu própria tenho que decidir se com as palavras ou com a música ou com a lembrança das cores e dos sabores), as outras duas ilustrações trazem-me outras leituras.
A ilustração de Alfredo Martins é, também ela como o texto, uma festa de cores num tabuleiro do mercado em que as tangerinas “saltam” para o saco de quem compra, com uma alegria de cor e movimento que só elas poderiam ter. E lá estão elas, ao lado do poema da página contígua, num rectângulo de cor que só quem sabe como é precioso este objecto livro é capaz de introduzir (nesta obra sente-se bem o papel dos directores gráficos do livro: Elsa Navarro e José Saraiva).
Estou agora face à dupla página com ilustração e disposição do texto da autoria de Joana Quental. É um projecto bem diferente: objecto gráfico construído como uma globalidade por uma equipa que integra a ilustradora, que criou para esta colecção caracteres específicos, introduzindo mais um elemento na “leitura” das páginas. Sobre um fundo alaranjado confronto-me, na página da esquerda, com os frutos que poeta diz serem música para os sentidos. Na página da direita o poema é separado em duas estrofes de cinco versos por uma bela tangerina, cujo nome, sabor e cor são escritos em caracteres diferentes. E esta reinterpretação da ilustradora ainda nos fascina um pouco mais – ela leu no poema a força das palavras música, sabor e cor da tangerina e quis partilhá-la com os leitores. É realmente simples ser-se artista…
E é na ironia da última frase que me quero deter um pouco. Eugénio de Andrade escreveu poemas com marcas indiscutíveis de uma obra de qualidade para a infância e não é muito difícil iniciar a aproximação dos jovens leitores à poesia com estes poemas. Mas a partir do momento em que eles nos surgem editados, passa a ser outra a nossa reacção de educadores – são livros para comprar para as crianças? E que fazer com estes livros?
A minha experiência tem-me mostrado que os dois primeiros têm despertado múltiplos interesses junto dos públicos jovens e menos jovens a quem os tenho apresentado.
A poesia contida das ilustrações de Júlio Pomar exerce um fascínio junto dos leitores que exige já uma relação mais familiar com muitos outros livros para crianças. (É de toda a justiça reconhecer o contributo das edições ASA com a Colecção Asa Juvenil para a formação de padrões estéticos mais elevados do público nacional.)
Já face à edição da Campo das Letras (Colecção Palmo e Meio) com a ilustração de Alfredo Martins, a aproximação é um pouco mais facilitada. Desde logo, o formato do livro e a contracapa que inclui uma explicação de Eugénio de Andrade sobre a génese destes poemas, encabeçada por uma ilustração apelativa, a remeter-nos para a sua condição de poeta (neste caso um pormenor da ilustração do poema “Aquela nuvem”), exercem um apelo mais fácil junto de um adulto que dele se aproximar…E a organização arejada das suas páginas interiores, com o poema na página da esquerda e a ilustração na da direita, “piscam o olho” ao hipotético comprador que, ao seguir o movimento natural da leitura, começa a ler o texto para descansar calmamente nas ilustrações inspiradíssimas que concluem o movimento do olhar ao folhear o livro (e muitas vezes voltamos atrás para ler mais atentamente o pormenor da ilustração sabiamente colocado para nos fazer reler o poema) funciona muito bem.
A obra de Joana Quental, a mais actual, apresenta “uma gramática de design editorial” concebida para comunicar com sucesso com um público já familiarizado com imensos grafismos que todos os meios de comunicação apresentam e que, por vezes, fragilizam ainda mais a caminhada no desenvolvimento cultural de todos nós. Estamos perante uma obra de uma criativa ilustradora cuja cor e traço já nos habituou à qualidade. E aqui os poemas de Eugénio de Andrade são a inspiração para um conjunto de ilustrações que se servem de técnicas mistas, que jogam às escondidas com os poemas singelamente colocados lado a lado, alternadamente em páginas duplas. O nosso olhar atento pela dupla página ilustrada é ainda activado pela atenção sobre os extractos destacados dos poemas que a artista escolheu para inserir na ilustração. E este jogo é, sem dúvida, um trunfo para cativar um público que é necessário seduzir também pelo mais exuberante, tão ao gosto das crianças actuais. Também este pode ser um caminho para aprendermos a ser mais exigentes nas nossas escolhas.
Estamos perante três objectos de arte, muito diferentes, mas igualmente interessantes, de fácil acesso, que nos farão contactar com manifestações artísticas por vezes inacessíveis a grande número de portugueses e de que é fundamental tirarmos partido para crescermos culturalmente.

 

Maria José Reis

 

 

O Autor 

Eugénio de Andrade é o pseudónimo de José Fontinhas Rato poeta, nascido na freguesia de Póvoa de Atalaia (Fundão), em 19 de Janeiro de 1923, fixando-se em Lisboa em 1932 com a mãe, mais tarde em Coimbra (1943), para se fixar definitivamente no Porto em 1950. A sua consagração como poeta está evidente nas inúmeras distinções, entre as quais o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários (1986), Prémio D. Dinis (1988), Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1989) e Prémio Camões (2001). Em Setembro de 2003 a sua obra "Os sulcos da sede" foi distinguida com o prémio de poesia do Pen Clube. Faleceu a 13 de Junho de 2005, no Porto.