
As lágrimas do assassino.
Bondoux, Anne-Laure - 1ª ed., Porto, Asa Ed., 2005.
Ganhador do Prémio Sorcières 2004, como o melhor romance juvenil publicado em França, este volume toca várias crenças caras ao narratário da faixa etária em questão.
A acção situa-se num terreno selvagem e inóspito do sul do Chile, antítese de um lugar edénico, que abriga uma família, os Poloverde, constituída por um casal e o filho Paolo.
A luta feroz pela sobrevivência deixa pouco lugar aos afectos. Raramente visitados, salvo por algum cientista à procura de fauna ou flora raras, surge, um dia, Angel Allegria que é a antinomia do nome: demónio soturno, assassino de profissão.
Calculista, mata os adultos, mas deixa a criança para o ajudar a sobreviver porque é sabedora dos hábitos quotidianos, sem suspeitar que vai ser Paolo o seu salvador como ser humano pela Inocência e Amor face ao Mal.
Angel, fruto da máquina social citadina em que as desigualdades são gritantes, afeiçoa-se ao rapaz Poloverde e, instintivamente, deixa-se conquistar pelo primeiro afecto – o de ser Pai.
Entretanto, aparece uma outra personagem nesse fim do mundo, um jovem endinheirado, à procura de aventura, oriundo de Valparaíso. A personalidade do recém-chegado é frouxa, preferindo acomodar-se ao rotineiro, com medo da mudança.
Convive com Angel e Paolo e provoca um sentimento de rejeição no outro adulto, enciumado pela preferência que Paolo manifesta junto de Luís, professor das suas primeiras letras. Essa porta maravilhosa aberta à criança provoca novamente sentimentos assassinos em Angel, apaziguados pela sabedoria de Luís sobre culturas da terra e criação de animais, o que melhora consideravelmente a vida de todos. O Inverno vai destruir a horta, matar os animais, resolvendo os três partir para a cidade mais próxima, no sul – Punta Arenas, longe da perseguição de que é alvo o nosso foragido.
Na estalagem onde se acolhem, depois de uma viagem tormentosa em que Angel rouba e tenta o assassínio por causa das cavalgaduras necessárias, Luís apaixona-se pela filha do estalajadeiro. Traindo a amizade, desliga-se dos companheiros e foge com o seu amor para correr mundo, não sem o foragido exigir com violência, parte do dinheiro da herança de Luís.
Reconhecido na cidade por cartazes, com a sua cabeça a prémio, Angel foge para a floresta e encontra um paraíso em casa de Ricardo Murga que, viúvo, vive só.
Coisas extraordinárias se passam: a mulher e os filhos do lenhador, que tinham sido brutalmente assassinados, voltam todos os dias a casa, porém só os olhos do Amor de Ricardo e os da Inocência de Paolo permitem conviver com estas personagens. Nessa casa, havia outros dois santuários de deslumbramento para o Poloverde: a biblioteca e o fonógrafo – a literatura e a música.
Por afectos até então estranhos à sua maneira de ser, Angel resolve desaparecer e deixar o garoto com o lenhador, ainda que de coração dilacerado.
É, porém, capturado pela polícia, condenado à morte e só o pequeno Paolo o vai visitar à prisão, nessa altura a viver numa família de acolhimento. Chegada a maioridade, volta a casa dos pais, faz grandes melhoramentos, enamora-se da gentil distribuidora de cartas, torna-se também funcionário dos correios. Casa com a sua amada, têm filhos e, sobretudo transforma um lugar infernal num lugar aprazível envolvido numa teia de afectos duradouros.
A partir dos 12 anos.
Manuela Maldonado
| O Autor
Nascida em 1971, Anne-Laure Bondoux vive na região parisiense. Desde os 10 anos que escreve histórias. Descobriu a literatura juvenil quando entrou para a “Bayard Presse” em 1996. Os seus primeiros textos foram publicados em diferentes revistas para a juventude. Desde 2000 que se consagra, por inteiro, à escrita de romances. |