
Ática
Kilworth, Garry - Porto: Asa, 2007
O título deste livro é plurissignificativo: se, por um lado, se entrosa na designação inglesa para sótão, attic, onde se vão desenrolar as aventuras da narrativa, por outro, releva da denominação de uma pequena península grega que, devido à sua morfologia estrutural com planícies, montanhas, rios e mar, pode ser considerada um continente, num sentido lato.
É com essa carga semântica que funciona como um espaço imenso para os três jovens ingleses: Jordy, Chloe e Alex que nele se aventuram à procura do relógio de estimação do S. Grantham, o senhorio da casa que habitam. Jordy é meio-irmão dos outros dois protagonistas, já que o seu pai, divorciado, casa com a mãe de Chloe e Alex, recentemente viúva. A família partilha com o senhorio o quintal e é nele que os jovens tentam quebrar o gelo do ancião, através de encontros e conversas, sobretudo da parte da rapariga. E, assim, depois de alguns contactos, o senhor Grantham desafia-os a “invadir o sótão” para procurar uma lembrança oferecida pela única rapariga que amou, em tempo da segunda guerra mundial.
Começa a grande aventura que, apesar de durar menos de um dia, amadurece os jovens pelas experiências a que são submetidos. Acompanhados de Nelson, um felino coxo, lançam-se à aventura… Evidentemente que a imaginação de cada um vai ter um papel importantíssimo no desenrolar dos acontecimentos, com base em experiências já vividas.
Chegados ao local, descobrem que o sótão se prolonga por outros das casas adjacentes, bem à maneira arquitectónica vitoriana. O escuro e a poeira enchem o espaço e, por isso, têm de se munir de lanternas. Encontram de tudo nas suas pesquisas: fotografias, algumas a sépia, correspondência, mobílias empilhadas, espelhos, baús com roupa, máscaras exóticas, num lugar em que a memória dos afectos são configuradas em objectos reais. E é a partir deles e dos ruídos das ratazanas e dos morcegos que a aventura, conduzida pela imaginação, dispara. Durante a saga, o perfil psicológico de cada um estrutura-se, sobretudo o de Alex, o intrépido. Conseguem encontrar o relógio e uma carta desse amor longínquo em que a namorada esclarece por que não esperou pela sua volta da guerra. O senhor Grantham pode morrer sem mágoa, afinal causada pelos correios em tempo de guerra, em que a correspondência demorava anos a chegar ao destino, sobretudo numa Londres bombardeada.
A tradução de Márcia Montenegro satisfaz plenamente.
Como é um texto para adolescentes, só a capa tem ilustração onde David Franklin, o ilustrador, captou o perfil das personagens: três silhuetas, de costas para o leitor, de frente para o desconhecido, sem limites, o continente do sonho e, daí, as diversas tonalidades de azul. De pé está Alex, o aventureiro, em posição de partida, protector da irmã, que ensaia o movimento de arranque como os atletas nas corridas. Jordy, o mais cauteloso, perscruta o horizonte, ainda numa posição estática. A preto estão os objectos e os animais reais, mergulhados no negrume do sótão e que vão desencadeando os acontecimentos.
A partir dos 12 anos
Manuela Maldonado
| O Autor
Garry Kilworth nasceu em York, em 1941, mas sempre viajou pelo mundo todo, recolhendo folclore, mitos e lendas dos lugares visitados. Escreveu o seu primeiro romance em 1977, sendo considerado um dos escritores britânicos mais criativos. Os 120 contos e os 70 romances que escreveu até à data valeram-lhe a atribuição de vários prémios, entre eles ter sido nomeado duas vezes para a Carnegie Medal. |