Coisas de Mãe
Sílvia Alves (texto) e João Caetano (ilustrações) - Ed. Paulinas, 2006

 

Irei partilhar convosco a minha primeira leitura deste livro escrito por uma autora leiriense. O primeiro olhar: a capa e a apelativa ilustração de João Caetano com o rosto vivo e sorridente da mãe num vestido vermelho doce e um regaço de mundo por onde espreita a filha. Sobre um fundo azul claro, mãe e filha abrem o colo a coisas que apetece descobrir. Estava iniciado o jogo de sedução essencial para pegar no livro. Continuamos a folheá-lo e reconhecemos que os autores cuidaram com atenção o início do livro: ou somos cativados por esta atmosfera em que se vai desenrolar a aventura ou esta nada nos diz e passamos para outro. Nós quisemos continuar e gostámos do que fomos encontrando – um texto que se vai abrindo em “planos fotográficos” que, ora se aproximam, ora se afastam, construindo uma história, como que um filme, em que as ilustrações nos vão clarificando os planos. Olhamos com interesse crescente para as páginas que vamos folheando e a leitura das imagens prende cada vez mais a nossa atenção, ultrapassando em tempo o que a nossa facilidade da leitura do texto necessita. Lemos o texto, lemos a imagem e ficamos muito mais preenchidos. Fixamo-nos no conteúdo do texto e logo a ilustração nos está a chamar, seja numa pequena torneira cuja mangueira se irá estender para fora de uma dupla página amarelo/verde com pequenas manchas esbatidas para não nos tirar a atenção duma das mensagens fortes deste início do texto – “As mães são fadas sem asas/que conseguem fazer coisas impossíveis”, seja na força do preenchimento total da página 37 com uma dinâmica apanha de batatas a saírem das tocas e que exige um trabalho imenso, como o texto nos sugeria. Não resisto a sugerir que procurem os lobos espalhados em várias ilustrações, porque aquele lobo fabuloso criado por João Caetano não mais nos larga até ao final. Foi assim que os autores, cada um à sua maneira, nos apresentam uma das principais mensagens do livro: “As mães perseguem os lobos nos seus sonhos, durante toda a vida. E acordadas cantam para espantar o medo”, dando uma dimensão muito especial “às coisas de mãe”. E o nosso interesse não encontrou hiatos em todo o livro, sobretudo pela unidade conseguida entre o ilustrador e a autora. Se esta nos apresenta histórias dentro das histórias dos quotidianos vividos a duas, a mãe e a filha, e que passam por relatos de vivências e por “histórias velhas, muito velhas” às quais a mãe gosta de acrescentar “remendos com novos pontos e muitos nós”, o ilustrador está constantemente a tecer imagens nas páginas, ora dando indícios de contemporaneidade, ora fazendo sorrir com a força do humor presente em inúmeras ilustrações. Se foi verdade que texto precedeu a imagem neste livro, o resultado final revela uma unidade tal que não permite hierarquizar autores. O texto de Sílvia Alves, uma principiante nestas lides, é suficientemente interessante para servir de base à ilustração de um ilustrador consagrado. As ilustrações de João Caetano sugerem-nos mais do que simples olhares, apetece tocar-lhes e explorar-lhes as texturas. Nelas descobrimos tons, recortes, desenhos, pormenores tão diversificados que, embora em grande número, não sobrecarregam as páginas do livro, antes as tornam cada vez mais atractivas. Sei que este livro tem preenchido momentos de leitura entre mães e filhos que não compreendem todas as palavras do texto, mas se deliciaram com os momentos de colo que o livro lhes proporcionou. Sei também de mães que vivenciaram intensamente estes momentos. Algumas mães voltaram ao livro, outras nem por isso. Alguns meninos voltaram a ver o livro novo que foram pôr na estante, junto das outras leituras para próximas sessões. Sei também de adultos que não conheciam a obra do ilustrador João Caetano e agora já conhecem melhor outras ilustrações. Estamos perante um livro que cumpre o seu desígnio – dar-se a ler.

 

Maria José Reis Alves