
Comandante Hussi
Jorge Araújo (texto) e Pedro Sousa Pereira (desenhos) - Quetzal, 2003
As classificações, todas as classificações, desde sempre foram redutoras. Claro que são cómodas para o consumidor final, mas quase sempre encerram simplificações, estereótipos, fronteiras artificiais e… reflexões.Vem esta introdução a propósito do recém Grande Prémio da Gulbenkian de Literatura Infantil, na modalidade de texto literário. Falamos do Comandante Hussi escrito pelo jornalista caboverdiano Jorge Araújo e ilustrado por outro jornalista: Pedro Sousa Pereira. Claro que, quando os classificamos de jornalistas, já estamos a simplificar, porque qualquer deles é isso e muito mais. Também o Comandante Hussi é (pode ser, será) literatura infantil… e muito mais. À partida, um livro premiado numa modalidade específica, já lhe consagra uma geografia topográfica na estante de uma livraria ou de uma biblioteca. Mas não só. Outros elementos textuais ou paratextuais podem induzir essa geografia. Por exemplo, o formato do livro, o tamanho da letra, a existência de ilustrações, a dimensão dos capítulos e da própria obra, a focalização de determinadas temáticas, a idade do(s) protagonista(s) da história, o tipo de narrador escolhido. Todos estes elementos podem ser perfeitamente acidentais na concepção de uma obra e ditarem, à partida, a sua inclusão num género ou tipo de literatura, sem que os respectivos autores definissem um alvo concreto de leitores a atingir. A favor da inclusão do Comandante Hussi na etiqueta de livro para jovens leitores encontramos a dimensão da narrativa (67 páginas), as belíssimas aguarelas com traço que pontuam o texto, e o herói, um rapaz que cresceu em tempo de guerra e nele desenvolveu as suas fantasias de criança, onde o maravilhoso de fadas e duendes é substituído por espingardas, fuzilamentos e a demanda da bicicleta enfeitiçada enterrada no fundo da sua palhota. Mas, um leitor adulto também encontrará nesta história uma preciosa metáfora das guerras em África, com os seus comandantes sinistros que exercem poderes arbitrários e sem controle, as chefias militares cegas, os informadores corruptos, os escribas do regime e um cortejo miserável de famílias desfeitas entregues a uma errância de sobrevivência. E deliciar-se-á com a subtileza e graça da linguagem, onde poucas concessões existem a um público mais jovem. Consciente desta ambiguidade, o autor do prefácio (José Vegar), diz que:”O leitor curioso que decida ler o texto que sucede e este prefácio terá nas mãos um livro para crianças que é uma crónica de guerra para leitura dos adultos de hoje, e uma crónica adulta de guerra esmagada por uma luminosidade só para crianças. Nesta narrativa encantatória, não há atropelos entre os dois trilhos, pelo contrário, eles nascem lado a lado, e acabam, suavemente, no mesmo ponto do horizonte.” Palavras sábias: “crónica de guerra” ou “narrativa encantatória”, estes “dois trilhos (…) acabam no mesmo ponto no horizonte”. É, no fundo, um olhar de leitor inteligente e sensível que o “Comandante Hussi” procura, seja ele um leitor jovem ou adulto. Um leitor que se saiba deliciar-se com a leveza do incipit da história (“Era domingo. Dia de missa e futebol. De carne ao almoço e tolerância de ponto ao acordar. Dia em que nada acontece e o sono tem mel.”), tenha ele 10 ou 50 anos; um leitor que ria ou sorria com as comparações caricaturais usadas para caracterizar o comandante Trovão (“… era uma personagem gorda, tão pesada que o chão tremia com as suas passadas de elefante. O seu rosto era uma cascata em alvoroço tanto o suor que lhe escorria pela testa, ainda assim nada comparado com o lago escondido por baixo do enorme casaco de pele de foca que um presidente de um país frio lhe ofereceu e que teimava usar naquele mórbido calor tropical. Tinha o olhar de pitbull anestesiado, dentes pontiagudos, desalinhados, a pele mais gordurosa do que o óleo de palma.(…) Os buracos do seu nariz pareciam crateras de um vulcão, os lábios, grossos e carnudos, podiam servir de almofadas a uma donzela.”) Um leitor que fique parado perante a simplicidade e complexidade desta ilustração. Leitor sem idade é a utopia de todo o escritor. Mas, aos 10 anos, ainda se podem formar leitores. O Comandante Hussi é um desafio de formação.
Natália Caseiro