
Enquanto a cidade dorme
Magalhães, Álvaro - Porto: Asa, 2007
Tal como em outros livros seus, a coexistência de mundos paralelos: o Real e o Fantástico é uma premissa aceite, se bem que a dualidade só é acessível a quem ainda não perdeu a aura da mundividência penetrando no sentido profundo das coisas. Mas, mesmo no caso de eleitos como crianças, poetas e outros privilegiados, o acesso ao mundo do outro lado tem de ser conduzido por um autóctone desse reino.
Tratando-se de um texto dramático, a interacção dos dois mundos é facilmente compreendida pelas inúmeras didascálias que, no texto teatral, será explicitado pelas técnicas de sonoplastia e luminotécnica, pela cenografia, guarda-roupa, etc.
No caso vertente, o passador é o anão Martim, uma espécie de duende que conduz Ana, um dos protagonistas, ao reino maravilhoso. O outro será Rui, o complemento do feminino, que, de alma menos despejada do Real, só acredita mais tarde na eficácia da pedra da sorte…
Interessante é o local por onde entram para a outra dimensão, uma sapataria que afinal é uma relojoaria onde há um relojoeiro fantasmático representando a fronteira do Tempo para o Sem Tempo. Martim ou qualquer outro passador não pode ser visto por humanos, perdendo a condição de imortal. Por isso, esconde-se continuadamente dos mortais, fazendo-se presente pela voz. O local do outro lado é simbolizado por uma floresta densa, lugar de segredo e mistério, onde os protagonistas encontrarão a Pedra das Histórias, que eles têm de ouvir e reter, assinando o Tratado da Lembrança para trazê-las para o mundo dos mortais, superando várias provas.
Como fazem viagem separados, Rui passa pelos Jardins Proibidos, numa prova que tem de superar e a que Ana foi poupada: nela encontra duas fadas Fly e Puc e uma menina da sua idade, que é prisioneira do Sem Tempo, porque optou por beber a água da imortalidade. Também veio com um rapaz que preferiu regressar, o Relojoeiro. E como foi há muito tempo, esta personagem tem um ar fantasmático. Ana e Rui regressam com o anão porque a sua inviolabilidade acabara ao ser visto por um garoto do mundo dos homens.
O texto dramático começa e acaba com um belíssimo poema “ Onde a Noite e os seus mistérios estão presentes…”.
A ilustração de Pedro Pires optando por apontamentos aguarelísticos de grande sensibilidade estética, opta pelo desenho, sobretudo de rostos, dos intervenientes, sem descurar um ou outro pormenor que os identifique, caso das fadas Fly e Puc e as suas asas, do anão Martim de aspecto humano a que as abas da casaca, reviradas, conferem outra pertença.
A partir dos 8 anos
Manuela Maldonado
| O Autor
Álvaro Magalhães nasceu no Porto em 1951. Começou por escrever e publicar poesia no início dos anos 80. O seu primeiro livro para crianças surge em 1982 – História com muitas letras. Num universo de mais de três dezenas de títulos encontra-se conto, poesia, textos dramáticos. A sua obra para a infância é uma imersão permanente na imaginação e no sonho, “factores poderosos da modelação do ser”. |