Histórias para Contar em Noites de Luar
Fanha, José Lisboa: Gailivro, 2010

 

A sugestibilidade do título remete o contador de histórias para a noite, quando o sono custa a vir e a lua faz sonhar, aparecendo o texto em forma rimada, típica da literatura oral.
Num conjunto de sete narrativas, há recriações muito bem conseguidas no domínio do imaginário, com reis, rainhas, estrelas, domadoras, maquinismos, em situações verdadeiramente inusitadas. Na primeira fala-se de uma máquina de apanhar poetas e, num círculo de adultos, só quem regressa ao primordial, à inocência, como a criança e o poeta, pode compreender o alcance da proposta. Não é por acaso o lugar que ocupa este conto no conjunto. É um aviso aos leitores que, mergulhando no comezinho, perderam a faculdade do despojamento para entender para além do imediato…
Numa outra situação narrativa, uma estrela tímida, personalizada com o nome de Maria Emília, despenha-se até ao mar, acabando por casar com um estrelo do mar, o Manuel António. Pelo inesperado do leitmotiv, o itálico surge-nos neste conto, significando os momentos de criação literária inovadora, que leva à ponderação de desenvolvimentos compatíveis com tal temática.
Outra situação inesperada é a desenvolvida no conto: “Pulquéria, a Domadora de Livros Selvagens”. De novo, por ocorrências em contextos novos, o leitor mergulha, gulosamente, no desenrolar dos acontecimentos. Aliás, o circo onde Pulquéria trabalha é o Grande Circo das Palavras Voadoras. Os seus artistas só trabalham com palavras e livros: é nas palavras que os palhaços tropeçam; o homem das forças levanta livros; e Pulquéria doma livros que chegam por um pequeno túnel, em desordem. São entre outros: A Ilha do Tesouro, Moby Dick, O Tigre da Malásia. Os livros percorrem a jaula, olham para os espectadores e rugem. Vestida de couro negro, cabelo cor de fogo e olhos azuis, a domadora, com um chicote, faz correr mansamente as páginas dos volumes. O narrador desta história é um garoto pequeno que foi ao espectáculo com a prima Susana, tendo encontrado, depois, Pulquéria sentada a ler D.Quixote. Afinal, domar livros selvagens é lê-los e relê-los.
Estamos perante uma elaborada metáfora sobre os trabalhos que um leitor empreende num percurso até à fruição do texto.
E há outras narrativas entusiasmantes!...
João Maio Pinto ilustra, a preto e branco, no início de cada narrativa, com motivos respeitantes ao texto escrito, recorrendo ao traço da Banda Desenhada dos anos 50/60 do século passado.

 

A partir dos 8 anos

Manuela Maldonado

 

Biobibliografia

José Fanha nasceu em Lisboa e licenciou-se em arquitectura.
É autor de histórias e poesia para a infância, dramaturgo e dramaturgista, autor de letras para canções e textos para rádio, guionista de televisão e cinema.