O Dia em que mataram o Rei.
Letria, José Jorge - Lisboa: Texto editores, 2007

 

Pondo como narrador um avô que constrói a história do regicídio para contar aos seus netos, já que testemunha presencial do acontecimento quando tinha 10 anos, Letria traça um fresco completíssimo do sucedido.
Num tom coloquial, com um diálogo motivante, as descrições suspendem, alargando-a, a narração, não faltando aqui e ali divagações opinativas de carácter pedagógico, como, por exemplo, a afirmação que um facto tem sempre duas faces e que a cidadania deve assentar numa tomada de posição consciente e responsável sobre os acontecimentos epocais.
O regicídio é visto por os olhos de uma criança na pré-puberdade e, por esse facto, a situação sangrenta perturba-o grandemente. Todavia, recolhe, no seu entendimento, opiniões de vários membros da família, uns republicanos e outros monárquicos.
O clima turbulento da época é simbolizado pelo Café Gelo, lugar onde se reúnem os conspiradores. Outra nota interessante é dada pelo narrador quando, após o tiroteio e a debandada das gentes, o silêncio toma conta do céu de Lisboa donde as gaivotas desaparecem pressentindo a tempestade. O céu azul, as nuvens de inverno de um branco anilado e o sangue vermelho compõem, na retina do garoto, a imagem do regicídio: o azul e branco monárquico tingido do vermelho republicano.
Porque o livro é ficcionado, o ilustrador, Afonso Cruz, conservando as personagens históricas, decidiu-se por um desenho infantil, caricatural, cheio de força expressiva, relativamente ao texto e ao contexto. O tom ocre da paisagem, tão alfacinha, aparece amiudadamente, coadjuvado por tons fortes, de acordo com emoções desencontradas.
O arranjo gráfico além da página do jornal ilustrado que contém a noticia em primeira mão, opta pela colocação da ilustração em páginas inteiras, as da direita, quase sempre encimadas por epígrafes, retiradas do texto da esquerda, no sentido do estabelecimento de um diálogo complementar relativamente a estes dois meios de expressão.

A partir dos 8 anos

Manuela Maldonado

 

O Autor

José Jorge Letria nasceu em Cascais em 1951. Estudou Direito e História. Jornalista desde 1970, foi redactor e editor de vários jornais diários. Na área infanto-juvenil publicou mais de três dezenas de títulos, entre eles: António e o Principezinho; O Menino Eterno; Cartas aos Heróis; O Homem que tinha uma árvore na cabeça; Versos de fazer ó - ó. É autor de peças de teatro e tem sido distinguido com inúmeros prémios como o da Gulbenkian.