O Dourado
Luís, Agustina Bessa – Lisboa: Minutos de Leitura, 2007

Num discurso oralizante e sentencioso com recurso a ditos e provérbios, uma das suas marcas de escrita, Agustina coloca a narração deste livro na boca do neto de um dos protagonistas.
Num ambiente rural de grandes senhores e de outras famílias menos prósperas, dois rapazes, oriundos de mundos diferentes, consolidam, durante a infância e a juventude, uma sólida amizade. São eles: o avô do narrador e o Dourado, alcunha de quem era uma estampa física com cabelos loiros. Trocam experiências de vida: o menino rico lê livros ao amigo, sobretudo os de aventuras de piratas como o Barba Negra; o menino desfavorecido leva o companheiro a festas e romarias. O Dourado, desejoso de usufruir das coisas boas da vida a que não pode aspirar, forma uma quadrilha que invade casas senhoriais, estando os donos ausentes, mas tendo como regra não molestar mulheres nem crianças. Na casa do Lagoal é a Miss inglesa que se fecha num quarto com as crianças e consegue salvar as jóias. É precisamente nessa aventura que o Dourado leva o amigo para fazer o “rito de passagem”, “um baptismo do mal”.
Anos mais tarde, o neto narrador desta história, ao visitar uma propriedade, descobre no meio do mato a casa do Lagoal. Em ruínas, é guardada por dois fiéis servos. Visita-a, sobe ao sótão e, conhecendo a aventura do avô, julga ver a Miss, desgrenhada pedindo socorro. Esta visão desmente a versão do avô que dizia ter sido forçado a ir nesse assalto, mas afinal participara de vontade.
A ilustração de Helena Costa explicita a referência temporal meramente implícita nas ocorrências, colocando a narrativa em meados do século XIX, com latifundiários senhoriais vestidos à moda da época e com reprodução de alfaias coevas. As ilustrações de página inteira são a transposição icónica do escrito. As que se encontram esparsas pelo pé de página são contributos pessoais de alargamento de informação. A capa é muito sugestiva, com a representação dos dois amigos encimada pela figura do Barba Negra, que traduz duas realidades na vivência dos garotos: para o menino rico, de pé, não é mais que um herói de livros; para o Dourado, sentado numa poltrona de veludo, é a mola inspiradora para enriquecer sem esforço.

A partir dos 8 anos

Manuela Maldonado

 

Biobibliografia: Agustina nasceu em Vila-Meã, em 1922. Embora tenha exercido actividades públicas como Directora do Teatro Nacional Dª. Maria II e ter sido membro da Academia de Ciências de Lisboa, entre outros desempenhos, consagrou-se inteiramente à criação literária. A sua primeira grande narrativa “A Sibila”, ganhou o prémio Delfim Guimarães