
O espantalho e o seu criado
Pullman, Philip – Lisboa: Editorial Presença, 2007
Mestre de escrita de volumes estimulantes de aventura para a adolescência, Philip Pullman com este livro – O espantalho e o seu criado – vai deliciar seguramente os seus destinatários. A intertextualidade é logo evidente no título: O feiticeiro de Oz e Quixote/Sancho Pança. No primeiro caso pelo boneco, no segundo pela relação sonhador inveterado/criado de bom senso, malgrado a idade de Jack, um adolescente. A associação de um espantalho e um adolescente, já por si, permite toda a incursão em mundos de alteridade, paralelos.
O senhor Pandolfo, dono do vale da Primavera, constituído por terras aráveis a perder de vista, bem arborizadas, um paraíso natural, vê-se perseguido pela família que reclama o local, já que a actividade desta se situa na indústria e precisa de espaço. Também os pássaros não largam as sementeiras do vale e, por isso, Pandolfo constrói um espantalho. O encontro de Jack, menino só, com o boneco, dá-se depois de uma tempestade quando o boneco reclama por ajuda dado que se encontra atolado na lama. A dormir clandestinamente num dos armazéns, Jack socorre-o e forma-se o par para a aventura, não sem antes o boneco se apaixonar pela sua Dulcineia: uma vassoura da quinta. Como em Cervantes, é o criado que vai encontrar soluções para sobreviverem, até porque o amo só tem dois grãos de ervilha como neurónios e um deles irá ser comido por um corvo…
Nas suas deambulações, cruzam-se com salteadores, soldados fomentadores da guerra, um circo que os contrata. Nesta última aventura fogem numa jangada rio abaixo, tal como Huckleberry Finn de Mark Twain. O encontro com um bando de corvos fá-los aportar a uma ilha em que as aves estão em congresso e a avó-corvo, que tem vindo a proteger o par, consegue a ajuda de todos para se chegar ao vale da Primavera. Não sem primeiro retocarem o espantalho que precisa de uma coluna vertebral nova. Ao desenrolar-se essa operação encontram no boneco um testamento de Pandolfo a favor do espantalho, com exclusão de todos os familiares. Mas os Buffalonis não desistem: os pretendentes litigam no tribunal; o espantalho vence.
Quem são os Buffalonis?
Donde veio o pau para a coluna do espantalho?
Como acaba a aventura?
É preciso ler, ler, com muita sofreguidão entusiasmada…
A ilustração da capa por Inês do Carmo joga com cores chamativas, evidenciando a relação amo/criado, através do avantajamento do primeiro e a inclusão do segundo na sua sombra, de que apenas o olhar inteligente e o sorriso aberto são sinais de quem sabe quem é o condutor da parceria.
A tradução de Maria Georgina Segurado satisfaz plenamente.
A partir dos 10 anos
Manuela Maldonado
Biobibliografia: Comparado a Lewis Carroll ou a Tolkien, Philip Pullman é um dos escritores infanto-juvenis mais premiado e reconhecido entre os grandes contadores de histórias. Da sua escrita é de pôr em relevo a trilogia – Mundos Paralelos – constituída por: Os Reinos do Norte, A Torre dos Anjos e O Telescópio de Âmbar. Entre outros, recebeu o Whitbread Book of the Year Award e o Children’s Book of the Year Award. |