O Gato Dourado.
Araújo, Matilde da Rosa - Lisboa, Horizonte, 1985.

 

É o primeiro conto que dá o título ao livro.
O gato cinzento de olhos dourados morre num dia de sol. Até tinha o hábito de comer flores da trepadeira azul…
Vencendo a dor, a criança enterra-o no quintal e, pedalando furiosamente tenta esquecer, interiorizando a ideia de que “é a vida”. Todavia procura na unidade materna o consolo, porque a mãe é o arco-íris.
O segundo conto é sobre uma flor brasileira chamada de Maria Sapeca ou Maria – sem-vergonha. Tudo começou quando Maria Sá vagabundeava junto do Lago da Solidão e pôs nos cabelos pretos essa flor vermelha. Intervém na narrativa, o Sabiá que diz “Maria Sá peca” e outros animais, até o Sol, mas ninguém lhe explica o sentido da frase. É então que a formiga deslinda o segredo aconselhando-a a ir para o cimo da montanha com o objectivo de ver o mundo, e sobretudo os homens, ansiosos pelo sorriso do seu rosto. Era tempo de deixar a auto-comiseração e ter o sentido dos outros.
A narrativa seguinte “O Passarinho Viúvo” é um hino à coragem de ultrapassar a solidão por meio de acções construtivas.
O conto “Não dói nada” é um momento conjuntivo de afectos: o do filho ferido num joelho e o da mãe dilacerada pelo sofrimento do menino. As imagens são de grande força como os joelhos parecerem papoulas de sangue e os olhos vidrados da mãe representarem a acumulação de lágrimas contidas. E a papoula de sangue é substituída por outra de mercurocromo. No final há um penso sobre a papoula, funcionando como o selo numa carta a enviar para longe. Olham-se os dois e o amor e a ternura também têm asas.
A última narrativa, “A Capa da Ana”, fala de um agasalho azul que a menina recebeu quando foi para a escola. Para a mãe era um amuleto porque, esvoaçando no meio do trânsito, defendia a criança. Para a criança era a liberdade esvoaçante de andar só. Por isso compreendem-se estas duas posições na frase da mãe que ficava à janela angustiada por vê-la partir “ser livre é crescer”. Mas a capa foi perdendo a cor, desbotou e a menina entendeu que também foi atingida por esse fenómeno no processo de crescimento ao conhecer facetas menos agradáveis da vida.
A ilustração, de Maria Keil, surge ora ocupando páginas inteiras, partes ou cantos, sendo bem figurativa, em tons de sépia, próprios dessas fotografias antigas a que o véu da saudade pode emprestar cor.

A partir dos 8 anos.

Manuela Maldonado

 

O Autor

Matilde da Rosa Araújo nasceu em Lisboa e foi nessa cidade que se licenciou em Filologia Românica na Faculdade de Letras, em 1945.
Professora e escritora é do intercâmbio entre essas duas valências que surge a atmosfera poética dos seus livros de um notável sensorialismo sinestésico. Como autora de livros infanto-juvenis estreou-se com “O Livro da Tila” em 1957, embora já tivesse produzido outros títulos para adultos. Desde “O palhaço verde”, passando pela “História de um rapaz”, por “O sol e o menino dos pés frios”, por “O capuchinho cinzento” e tantos outros, “a sua obra para crianças e jovens é das mais importantes da literatura portuguesa deste século” como diz José Jorge Letria. Foi a primeira vencedora do Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças em 1994. Nesse ano, a Editora Civilização homenageou-a no seu 3º colóquio sobre “A literatura infanto-juvenil e o ensino”. Em 2004 a Sociedade Portuguesa de Autores atribuiu-lhe o Prémio Consagração de Carreira.