
O Grande Jogo
Almond, David – Lisboa: Editorial Presença, 2004
A acção é colocada numa região mineira inglesa, de carvão, e várias gerações nela participam. A localidade é Stoneygate e na toponímia estão contidas duas palavras definidoras de mina: pedra e portão, por extensão saída dos túneis. No tempo da história do livro, toda a actividade mineira cessou, embora, na cabeça dos que viveram essa dura realidade, os túneis das minas continuem a ser percorridos por quantos lá morreram de desastre, sobretudo crianças, recrutadas como mão-de-obra barata.
Os adolescentes que vão protagonizar a narrativa são já netos dos últimos mineiros e frequentam a escola local. São eles: Kit Watson, o narrador na primeira pessoa, John Askew, o visionário destemido e Allie Keenan, o elemento feminino ora desafiador ora apaziguador. Dos três, só Askew é oriundo de uma família disfuncional, com um pai sempre ébrio e uma mãe sofredora.
Os acontecimentos situam-se entre o Outono e a Primavera, o espaço do tempo escolar anual. Tudo começa com o jogo da Morte, nas minas abandonadas. O instigador é Askew que se faz acompanhar por um cão selvagem. O jogo é uma iniciação com a simulação de uma passagem da vida para a Morte. Depois de um pacto de sangue, aquele que se vai prestar à iniciação é deixado sozinho, às escuras, no labirinto dos corredores mineiros, tendo que encontrar uma saída. A ressurreição é a saída e nem sempre corre bem.
Mas nem todas as experiências são similares, já que só os mais intuitivos como Kit e Askew, porque netos de mineiros e conhecedores de tragédias, conseguem vislumbrar na escuridão os grupos de crianças mortas nesse local, gemendo pela infância que lhes tiraram. Quando o jogo é divulgado por alguns iniciados, Askew, o mentor, é expulso da escola. Entra em vagabundagem, despedaça o coração da mãe e será Kit o seu salvador ao pedir a colaboração do amigo para os desenhos da história que escreveu e empolgou toda a escola. Com a morte do avô Kit recebe todo um legado: as histórias já contadas ao neto, os fósseis que trouxe da mina. Este acervo talvez faça de Kit um grande escritor.
Grande perscrutador da alma adolescente, David Almond apresenta-nos um fresco de personagens muito reais, com os seus sonhos, as suas frustrações, as suas maldades, as suas dádivas desinteressadas.
A ilustração da capa, de Danuta Wojciechowska, representa o traçado labiríntico das minas, encimado por uma figura longilínea, sem rosto, de vestes flutuantes azuis, quiçá o sonho personificado, entre a vida e a morte.
A partir dos 12 anos
Manuela Maldonado
Biobibliografia: Por este livro, David Almond recebeu o Whitbread Children’s Book Award. |