
O Grande Livro Dos Retratos de Animais
Svjetlan Junakovic - editora galega OQO
Praticamente desconhecido em Portugal (só as Edições Nova Gaia editou em 2003 o título para crianças “Oh! Oh! Feliz Natal!”) e muito divulgado e premiado no Brasil, surgiu agora em Outubro pela mão da Editora galega OQO um livro do artista croata Svjetlan Junakovic, com o título: “O grande livro dos retratos de animais”, grande no tamanho e grande na qualidade gráfica.
Trata-se de um livro de grande formato, capa endurecida, com uma paginação alternada de texto e imagem. Que texto e que imagem? Numa página uma reprodução a óleo sobre madeira ou tela de um animal (um pinguim, um macaco, uma ovelha, um leão, uma rã, etc) em pose de retrato; na página ao lado, um pequeno texto de um ou mais parágrafos, justificando a atitude ou outras características físicas do animal retratado. A edição não inclui comentários promocionais ou informativos sobre a obra ou autor e, sobre este, apenas tomamos contacto com a intenção da obra através de uma introdução plena de ambiguidade; nela se diz que todos conhecemos retratos de humanos pintados ao longo da história e presentes em galerias e museus; mas sobre os animais, “pensa-se que não existem, ou que jamais terão sido expostos” (…) “O livro que tendes entre as mãos foi concebido precisamente com desejo de dissipar estas convicções, eliminar todas as dúvidas sobre o mérito dos retratos e testemunhar como os animais foram objecto de um particular interesse em épocas e circunstâncias diversas.”
Perante estes aspectos textuais e paratextuais, são possíveis 3 atitudes diferentes (excluindo a indiferença, claro!) de leitores que se deparem com o livro na secção infanto-juvenil de uma livraria: LEITOR A – a criança que, ao folheá-lo, achará mais ou menos piada aos animais vestidos de pessoas, estranhará, talvez, o fundo escuro da maior parte dos quadros e comentará, com os seus botões, que fazem lembrar coisas antigas! Sobre o texto ao lado, mesmo que saiba ler (e o tamanho da letra não faz grandes concessões!) pouco perceberá. Certamente que não o vai reclamar aos pais para presente de Natal ou outro!
LEITOR B – do grupo etário do Leitor A, pode haver algum mais velhinho ou mais curioso que, perante os mesmos retratos, tenha feito ligações com alguma imagem já vista em livro e deduza que o ilustrador quis brincar aos pintores célebres e em vez de humanos, colocou lá animais. Confirma mais tarde que aquela “ovelha” é parecida com o quadro de Veermer na “Rapariga com um brinco de pérola”, aqui transformada em “A ovelha com turbante azul ou A ovelha do brinco de pérola”. Mas se a sua curiosidade chegar ao ponto de ler a introdução do ilustrador, fica com dúvidas: “As semelhanças que se podem estabelecer com alguns dos mais famosos retratos do género humano é puramente acidental.” Estes adultos são mentirosos, pensará, estão a fazer bluff! Este ilustrador/pintor quer é jogar! Vamos tentar descobrir mais quadros conhecidos! E este jovem leitor talvez consiga encontrar mais pistas na história da pintura e, devidamente apoiado por adultos, encontre lógica nos textos que comentam as imagens.
LEITOR C – é certamente um adulto com alguma informação (e sensibilidade) que mais potencia as leituras possíveis deste livro. Primeiro porque faz reconhecimento imediato das imagens que são clássicos da pintura: “A morte de Marat” e “Madame Recamier” de Jacques-Louis David; “Laura Battiferri” de Bronzino; “A dama com cordeiro” de Leonardo Da Vinci; “O duque_de_Urbino” de_Piero della Francesca; “Auto-retrato” de Durer; “Batota com o ás de ouros” de Georges de la Tour; “O jovem” de Hans Holbien ; “Rapariga com um brinco de pérola” de Veermer; “Retrato de uma dama” de Rogier van der Weyden; Rembrant e outros. A seguir confirma características de pintores, estilos e quadros em referências subtis do texto; depois infere sobre a lógica da associação da figura retratada no quadro original com o animal que a substituiu. E lá está a personalidade de um que transposta para a personalidade do outro.
Não sendo nova este tipo de intertextualidade com a pintura na literatura infantil, pareceu-nos diferente esta maneira de fazer pedagogia da arte. Sem concessões. Com subtileza.