O Grande voo do Pardal
Jorge, Lídia - Lisboa: D. Quixote, 2007

 

Na sua primeira incursão na escrita para a infância, Lídia Jorge oferece-nos uma narrativa com a sua habitual mestria.
Duas personagens: um homem e um pardal. Se o protagonista tem um nome cheio – Henrique Gaspar, o pardalito, pela ausência de uma pata, é o perna-só. Se a casa e o jardim de Henrique Gaspar são sinónimos de limpeza e assepsia, já os pardais, em bando, conspurcam os lugares por onde passam com “lágrimas de cocó”. E é por isso que a personagem humana põe espantalhos no telhado para afugentar as aves. Porém, um dia, Henrique Gaspar encontra no jardim um pardal que, apesar de surpreendido por um esboço de ataque do homem, continua firme malgrado ter uma só pata. Desse confronto momentâneo nasce uma amizade eterna; o pássaro passa a entrar em casa, suja a mobília, debica na mesa das refeições e poisa no ombro de Henrique. Este, percebendo a solidão do pardal, lança mão de estratagemas para que os pardais voltem ao seu jardim, retirando os espantalhos. O desiderato é conseguido, o pardal integra-se, parte de vez em quando, voltando sempre ao ombro amigo. Está perfeita a convivência: uma grande amizade no respeito pela liberdade.
Uma técnica narrativa assaz interessante neste volume é o diálogo narrador/narratário, explícito em passos importantes no entendimento de afectos. Pedagogia pura para a infância!...
A ilustradora, Inês de Oliveira, num desenho figurativo de cores suaves, guarda a diferença natural da estatura das duas personagens, salvo quando exprime a integração do pássaro no círculo de amigos de Henrique Gaspar. Como é o objecto da visita, a ave agiganta-se, num conjunto de duas páginas. Iconicamente, exprime-se o lugar enorme que o “perna-só” ocupa no coração do seu amigo.

A partir dos 8 anos

Manuela Maldonado

 

O Autor

Lídia Jorge nasceu no Algarve em 1946.
O seu primeiro livro " O Dia dos Prodígios" (1980), foi um acontecimento literário importante. Outros se seguiram. "A Costa dos Murmúrios", em 1988, sobre a guerra colonial foi tema de um filme recentemente. Além de narrativa também escreveu no género dramático.
Entre os prémios recebidos, destaque-se o Bordallo de Literatura da Casa da Imprensa pela sua obra "O Jardim sem limites". Está traduzida em várias línguas.