
O Grito da Gaivota
Laborit, Emmanuelle – Lisboa: Caminho, 2007
As diferenças socioculturais e raciais, neste mundo globalizado, têm incentivado a elaboração intensiva de obras ficcionais no universo da literatura infanto-juvenil. No entanto, outras diferenças como a cegueira, a surdez, a paralisia, física e cerebral têm sido muito menos motivadoras até porque constituem mundos de difícil acesso para quem nunca os experimentou. Por isso, este livro autobiográfico, escrito por uma surda profunda de nascença, é uma janela para o entendimento do mundo do silêncio.
Emmanuelle Laborit, oriunda de uma família francesa de classe social elevada, é a primeira filha do casal. Apesar do pressentimento intuitivo da mãe sobre a surdez da filha, ela só é diagnosticada aos nove meses. A criança não entende o que a rodeia: “Entre os zero e os sete anos, a minha vida está cheia de lacunas. Só tenho recordações visuais.” Apesar do esforço da mãe que inventa com ela linguagem gestual artesanal e da frequência do jardim-escola, a percepção do mundo é muito limitada, dado que a escola francesa para essa disfunção, então, só admitia o uso da ortofonia, excluindo a linguagem gestual. Porém, a partir dos 7 anos, os pais encaminham-na para uma escola de Vincennes, de linguagem gestual, com sede nos estados Unidos. Numas curtas férias, os pais e a criança aprendem a comunicar plenamente. E, depois, a sua irmã mais nova, Maria.
Um outro grande momento é a chegada do Minitel que permite a comunicação através da linguagem escrita.
Entretanto continua a frequentar a escola de ensino especial francês onde impera o uso exclusivo da ortofonia.
Com a adolescência e a separação dos pais, há crises profundas, deixa os estudos, frequenta a noite, mais exposta que os que ouvem a consequências graves. No entanto, apesar da angústia, os pais esperam o seu apaziguamento. Assim acontece, retoma os estudos, acaba o secundário, seguindo a via do teatro. Escolhida para protagonista de uma peça de Mark Medoff, intitulada “Os filhos do silêncio”, espectáculo a que assistira com os pais aos 10 anos, ganha o prémio Molière de interpretação: “Sou uma gaivota que ama o teatro, que ama a vida, que ama os dois mundos. O dos filhos do silêncio e O dos filhos do ruído. Que sobrevoa e pousa em ambos com a mesma alegria.”.
A partir dos 12 anos
Manuela Maldonado