
O meu primeiro livro de viagens
Higino, Nuno – Leça da Palmeira: Letras e Coisas, 2008
O mundo poético de Nuno Higino atravessa o das Realidades, configurando-o de um modo pessoal muito particular num vaivém enriquecedor da descoberta. Neste seu volume – O meu primeiro livro de viagens, dedicado ao Zé Pedro, à Bárbara e ao Mateus, fala-se da aventura de nascer nas duas primeiras narrativas e do despertar sensorial de um menino de berço, face ao espaço envolvente, na terceira.
Na viagem do Zé Pedro, o espaço uterino é um planeta redondo em que o único habitante não fala nem vê, mas sorri; e os raros movimentos provocam carícias maternas. Num isolamento temporário, o menino sonha, antevendo um futuro, talvez porque a mãe lhe fala amorosamente. A metáfora de um túnel vermelho com uma luz ao fundo e o desejo de o atravessar explica o nascimento, seguido do choro que é a afirmação de uma individualidade, a chegada de uma pessoa.
No caso da Bárbara, a metáfora utilizada é dos pontos de luz, em crescendo, que explica o desenvolvimento da criança no seio materno, criança cada vez mais irrequieta e autónoma “no labirinto dos fios de luz em que navegava”. O momento do vir ao mundo é dado pela sensação vertiginosa de se despenhar num abismo. Os fios desaparecem, no entanto encontra outros dois pontos luminosos que a recebem nas mãos, intacta.
Por último, na história de Mateus, a descoberta sensorial do espaço envolvente acontece num mundo do primordial pelo encontro de duas figuras imbricadas nesse universo: a criança e o artista. Neste caso, o artista é Avô Pinturas que perde gostosamente algumas figurinhas de barro que modelou e pintou para que o neto cresça entendendo e sentindo o que o rodeia.
José Rodrigues ilustra numa sábia combinação de impressionismo e expressionismo, de modo a transferir para o texto icónico o vago, o indizível, utilizando uma difusa paleta de cores na forma de um diálogo coerente com o texto escrito. José Miguel Reis aproveitou a sugestão dos dois textos em presença, o icónico e o escrito de um modo inteligente: a par de páginas inteiras ilustradas e de motivos disseminados por outras, espalha frases emblemáticas do texto, em caracteres tipográficos variáveis e coloridos, sugerindo uma leitura minimalista.
A partir dos 8 anos
Manuela Maldonado
| Biobibliografia: Nuno Higino nasceu em 16/07/1960 em Sendim, Felgueiras. Ordenado padre em 1985. Durante 4 anos foi educador e professor de português no Seminário do Bom Pastor. Entre Novembro de 1988 e Setembro de 2001 foi pároco de Fornos, Marco de Canaveses, tempo durante o qual foi construída a Igreja de Santa Maria, com projecto de Álvaro Siza Vieira. Parte em Outubro de 2001 para Madrid onde estudou Filosofia Estética na Universidade Comillas e desenvolveu uma investigação para Doutoramento "O olhar, o espaço e a arquitectura. O processo criativo de Álvaro Siza a partir da Fenomenologia". Autor de Literatura Infantil publicou desde A mais alta estrela. Sete histórias de Natal. Marco de Canaveses, 1998; até Onde dormem os pássaros? Ilustrações de Armanda Passos, Lisboa, Caminho, 2007. É Autor também de poesia para adultos e alguns Guias. |