O meu primeiro Portugal
Letria, José Jorge - Lisboa: D. Quixote, 2008

 

Como necessidade de afirmação e de identidade pátria, o volume contém um CD com o hino nacional e uma bandeira miniatura para pôr na mesa de trabalho.
Falado na primeira pessoa, é Portugal que se apresenta num longo monólogo, raramente quebrado por diálogo, abarcando toda a sua história pessoal de Pátria, do nascimento à actualidade. O monólogo é antecedido por um bem conhecido poema de Torga em que o poeta fala do conceito. Além de desenvolver todo o seu historial, nascimento e crescimento, a maior parte das vezes da forma poética que Letria tão bem deixa escorrer e impregnar no que escreve, Portugal fala dos seus filhos dilectos nos diversos ramos da cultura e, por isso, surgem no volume escritores com páginas pessoais. Há também a nomeação de cientistas e atletas da actualidade em diversas modalidades.
Para quebrar o monólogo, surge a figura camoniana do Velho do Restelo, em várias situações, como contraponto pessimista da alma portuguesa empreendedora. Esta figura, de certa forma, implica a necessidade justificativa do que é ser português, até nos aspectos menos positivos como o da gabarolice, o do sonho excessivo, o da parca realização. Um outro ponto importante do monólogo é a defesa da língua como “património maior”, tantas vezes maltratada pela comunicação social.
Digna de registo é a resposta que Portugal dará a qualquer criança que o aponte no mapa das nações, perguntando quem é: “Eu chamo-me Portugal e sou a tua casa e a tua pátria”. Completa-se o ciclo definidor começado pelo poema de Torga.
Henrique Cayatte, como ilustrador, constrói um discurso icónico de harmonia com o textual, ora ilustrando pontualmente afirmações em qualquer lugar da página ora prolongando-as com sugestões cromático-pictóricas em páginas inteiras, de grande qualidade.
O arranjo gráfico opta pela inscrição do texto em páginas cheias, recorrendo à cor de fundo, muito variada, que funciona, impressivamente, como uma manifestação antropomórfica de Portugal no domínio dos sentimentos: quando o fundo é azul ou verde claro tem a ver com apaziguamento ou sonho, cores do mar e do céu; quando é negro, exprime o medo, o receio, o desconhecido; quando há recurso ao vermelho e verde, define-se a alma portuguesa.
No final do livro, curiosamente, aparece o B.I. de Portugal, prova da sua existência na Europa, com código de telefone e de internet. O livro acaba com uma enumeração explicativa das datas importantes da História portuguesa.

A partir dos 7 anos

Manuela Maldonado

 

O Autor

José Jorge Letria nasceu em Cascais, em 1951. Estudou Direito, História e História da Arte e possui uma pós-graduação em Jornalismo Internacional.
Jornalista, autor de programas de rádio e de televisão, nomeadamente fazendo parte da equipe criativa da “Rua Sésamo”, em Portugal.
Tem recebido inúmeros galardões pela sua obra publicada. Em 2002 integrou a lista “Books and Reading for Intercultural Education” da União Europeia com o seu livro para crianças “O Homem que Tinha uma Árvore na Cabeça”.