
O polegar de Deus.
SACHAR, Louis -
Lisboa: Presença, 2000
Texas. Camp Green Lake.
Green Lake? Nem por isso, apenas terra desértica, árida e inóspita. Camp? Sim, Acampamento, mas não de escuteiros em férias. O seu nome é Edifício Correccional Juvenil Camp Green Lake. E quem coloca o narrador neste espaço hostil? Uma directora, ruiva, sardenta, com estranhas unhas envernizadas com veneno de cascavel; um guarda, o Senhor Sir, com uma tatuagem também de cascavel no braço e devorador compulsivo de sementes de girassol, para iludir o vício do tabaco; ainda o Senhor Pendanski, mais manso, até no nome: “pena+dança+ski”, de alcunha, “Mamã” para os rapazes. E quem eram estes rapazes “em reeducação”? Mais outras tantas alcunhas edificantes: o Saco Vómito, o Raio-X, o Zero, o Ziguezague. Quem chega de novo é logo baptizado. E aqui começa a história de Stanley Yelnats, vulgo Troglodita, que mal chega, é logo informado das regras da casa. Regra nº 1: escavar, todos os dias, um buraco com a altura da própria pá utilizada na escavação. Buracos e mais buracos.(“Holes” é, bem mais a propósito , o título original da obra). Camp Green Lake era um vasto cemitério de buracos que enterrava rapazes em reabilitação… e répteis que aí procuravam sombra.
Stanley aprende a escavar buracos, a dominar o calor, a gerir a porção de água e a sobreviver no meio de lagartos, cascavéis e escorpiões. Mas, mais difícil é sobreviver no meio daquela estranha comunidade, resistindo às provocações, às humilhações e solidão. O azar sempre tinha sido a sina dos Stanley, já desde o tempo do seu trisavô, nascido na Letónia; conseguiria Stanley IV inverter a maré de má sorte que estigmatizara as gerações anteriores? As perspectivas não eram animadoras: estava ali a cumprir uma pena injusta de tribunal que o acusava de furto e, por mais que se esforçasse por ser servil, tolerante e passivo, os problemas apostavam em bater-lhe à porta. A fuga do seu amigo Zero pelo deserto fora vai despertar nele a necessidade de enfrentar o seu destino de espectador do azar. Tinha de salvar o seu aprendiz de letras e números, exposto ao calor do deserto, à privação de água, às humilhações dos guardas, tinha de descobrir o estranho mistério do tesouro esperado em cada buraco, tinha de atingir a montanha lá bem no fundo, sob a forma de Polegar de Deus, e outrora refúgio do seu bisavô. E é quando o protagonista ousa desafiar e desobedecer que o seu carácter se fortalece e os mistérios se desvendam. Encontra o amigo, transporta-o até ao Polegar de Deus e sobrevivem graças a umas cebolas mágicas que uma nascente da montanha fazia brotar. Bem, mas a história das cebolas, da mula Mary Lou e de negro Sam, da professora Kahterine que virou temível assaltante de bancos, são outras histórias que se cruzam com a de Stanley e Zero e se entrelaçam com o tesouro por descobrir. O final é cheio de revelações e o herói acaba por ter estranhas ajudas: uma família de lagartos envolvendo o seu corpo e uma advogada que aparece a reclamar a inocência e libertação de Stanley; o sistema judicial funcionou, os maus foram punidos e o feitiço do azar parece ter terminado.
Obra prima de imaginação, inteligência e sensibilidade de um autor consagrado nos EUA e justamente premiado (1998 National Book Award for Young People’s Literature e o 1999 Boston Globe-Horn Book Award for Excellence in Children’s Literature).
Natália Caseiro