
O Rapaz do Espelho
Magalhães, Álvaro - Lisboa: Texto Editora, 2008
O Subtítulo “O melhor conto do jovem Hans Christian Andersen” remete-nos para uma epígrafe que antecede a narrativa, do próprio escritor dinamarquês: “Na infância não podia pensar na minha vida como uma realidade sólida, só como uma jogo de fantasia”.
Aproveitando esta frase de Andersen e servindo-se do espelho que reflecte o duplo invertido, Álvaro Magalhães vai, de novo, falar do “cá” e do “lá” e da travessia de alguns privilegiados, sempre de uma maneira inovadora e sugestiva. Recordemos, entre outros títulos. “O Último Grimm” em que a passagem entre os dois mundos se faz numa relojoaria, com o auxílio de um duende. Neste caso, é o espelho que vai desempenhar essa função.
O livro começa num jeito de registo biográfico do escritor dinamarquês, colocando-o, jovem, no telhado da sua casa, em observação. E é então que a imaginação do rapaz vê coisas inusitadas, sobretudo em casa do vizinho alfaiate, entre elas uma grande queda de neve. No dia seguinte, o alfaiate explica que todos temos um duplo, do lado de lá do espelho: o que ele observou na noite passada, acontecera com o alfaiate do lado de lá. O seu duplo tem um contencioso grave com o Homem das Neves que todas as noites reclama o manto prometido, ameaçando-o de lhe tirar a alma. Trata-se de uma personificação da morte, bem menos desagradável das que ocorrem habitualmente. Uma outra noite o jovem escritor vê o roubo do manto por dois meliantes, resolvendo passar para o outro lado, com a ajuda de um duende que mora em casa do merceeiro, dada a perda da sua imortalidade. Na caminhada para o Castelo da Morte ocorre um encontro com uma feiticeira que mantém prisioneira a filha do alfaiate e, depois de metamorfoses do duende em porco, Hans recupera a alma e a filha do alfaiate. No meio de todas estas peripécias há a reescrita do conto “O rei vai nu”.
Como história maravilhosa, o amor dos dois jovens tem um desenlace feliz e o par deixa para a posteridade um sorriso franco no espelho, que funciona como uma fotografia para os vindouros.
A ilustração de José Miguel Ribeiro explora a paisagem brumosa do Norte com um fundo vermelho de aurora boreal, contribuindo para uma irrealidade cénica. Nos interiores, valorizam-se as diversas tonalidades da madeira da floresta nórdica, com pinceladas de verde significando a Natureza ausente da sua pujança do sul pela neve e o frio.
O índigo e o violeta, e também o azul, funcionam nos cenários do outro lado, o do mistério e o do sonho. É aqui que se agigantam as personagens, enquanto no lado do Real aparecem parcimoniosamente em cima ou fundo de página.
A partir dos 8 anos
Manuela Maldonado
| O Autor
Álvaro Magalhães nasceu no Porto em 1951. Começou por escrever e publicar poesia no início dos anos 80. O seu primeiro livro para crianças surge em 1982 – História com muitas letras. Num universo de mais de três dezenas de títulos encontra-se conto, poesia, textos dramáticos. A sua obra para a infância é uma imersão permanente na imaginação e no sonho, “factores poderosos da modelação do ser”. |