O Rio das Framboesas
Wallace, Karen – Lisboa: Editorial Presença, 2008

 

Contado na primeira pessoa pela narradora – protagonista, Nancy, uma pré-adolescente, a narrativa, situada na ruralidade do Canadá, de uma vegetação luxuriante e diversificada, ocupa-se de experiências e vivências de uma comunidade de jovens vizinhos e respectivas famílias. A acção situa-se durante a primavera, aquando do degelo, e o verão. O rio que passa pela zona, o Gatineau, faz a fronteira entre o real e o imaginário, separando o habitat humano da Natureza propiciadora de aventuras e fugas, constituindo, por isso, um lugar mágico.
O nome do volume deve-se ao facto do início da acção se situar na primavera, estação em que começam a eclodir os frutos vermelhos, prenunciadores do Verão e das férias …
Nancy vive numa família tradicional, com os pais e o irmão, Andrew, numa casa de madeira tipicamente canadiana. Entre os amigos da escola, seus vizinhos, há-os de todas as classes sociais, marcados por preconceitos ou pela sua ausência. Num discurso divagador, próprio da idade da narradora, os acontecimentos sucedem-se marcados pela descoberta do mundo dos adultos, dos seus escaninhos secretos, como o amor, o sexo, a mentira, a hipocrisia. A crença na inocência e na bondade dos outros desmorona-se. E, por isso, o discurso narrativo, envolto num dia-a-dia de rotina, retratado fielmente, ainda que com constantes rupturas, precipita-se para um final, utilizando um diálogo vivo propiciador de perguntas e respostas que vão acontecendo sobre as pessoas conhecidas, sobretudo a partir do capítulo dez. Se nos primeiros capítulos a angústia existencial se reflecte, esporadicamente, em ocorrências que podem humilhar os jovens perante os colegas de escola, a partir do capítulo 10, o real supera o imaginário, com perda de uma infância em que os dois mundos coexistiam, e onde o segundo mitigava o primeiro.
A tradução de Clara Aguiar Riso é magnífica no sentido de uma língua segunda apresentar uma fluência indiciadora do domínio dos dois códigos em presença.
A capa de Danuta Wojciechowska, ao colocar uma grande etiqueta com o título do livro e um fio solto que dela se desprende, sem alcançar as framboesas, lugar mítico da infância, assinala na perfeição a perda irreversível de um mundo de inocência, sem retorno.

 

A partir dos 10 anos

Manuela Maldonado

 

Biobibliografia

Karen Wallace é uma escritora canadiana com vasta obra na área da literatura infanto-juvenil. Dedica-se, também, à orientação de terapia de grupo, através da escrita e da leitura.
Diz ela: “Uma das melhores coisas de ser escritor é que tu podes escrever livros ao lê-los”