O Segredo
Magalhães, Álvaro - Porto: Asa, 2006

 

Como síntese de mais uma narrativa de grande criatividade e originalidade de Álvaro Magalhães, poderíamos dizer que não se exija aos outros aquilo de que se não é capaz. E um Segredo é o pretexto.
No imaginário infantil, mesmo num país republicano, o rei é o símbolo máximo do poder e das virtudes. Neste caso, o governante, afligido por um terrível segredo que não pode revelar e o faz inchar como um balão na ânsia de se escapar á viva força, usa da sua autoridade para mandar procurar um súbdito humilde na parte mais longínqua do reino. A escolha acaba por cair num lavrador, muito feliz com a sua família, que é obrigado a ir para a corte como criado. O rei, ao passar-lhe o terrível segredo, retoma a sua forma esbelta e deixa partir o pobre do homem. Este, com receio de contá-lo, pelas inúmeras perguntas que lhe fazem, retira-se para o monte mais alto. Nesse local vêm outras pessoas desabafar. Não se contendo mais, abre um buraco fundo e enterra o segredo. Todavia, nascem margaridas que com o vento, espalham o que nunca devia ser conhecido e, nesse momento, o segredo deixa de existir. Balançando entre o castigo e perdão, o rei compreende que não era exigível pedir a alguém tamanho sacrifício.
Como em muitas outras narrativas, o escritor recorre a contextos de cultura universal, neste caso bíblica, para explicar ocorrências. É o que acontece quando se fala do bom discernimento do protagonista a propósito do perdão que, ligeiramente alterada, é a história da justiça de Salomão quando duas mulheres reclamam a maternidade de uma criança.
Júlio Vanzeler, o ilustrador, privilegiando as personagens principais, diferencia-as pela estatura e porte, desenhando um rei quixotesco e um lavrador Sancho-Pança. Cores outonais proliferam na ilustração, que ora surge em páginas inteiras ora partilha espaço com os grafemas.

A partir dos 8 anos

Manuela Maldonado

 

O Autor

Álvaro Magalhães nasceu no Porto em 1951. Começou por escrever e publicar poesia no início dos anos 80. O seu primeiro livro para crianças surge em 1982 – História com muitas letras. Num universo de mais de três dezenas de títulos encontra-se conto, poesia, textos dramáticos. A sua obra para a infância é uma imersão permanente na imaginação e no sonho, “factores poderosos da modelação do ser”.
A originalidade dos seus textos valeu-lhe a atribuição de numerosos prémios concedidos quer pela Associação Portuguesa de Escritores, quer pelo Ministério da Cultura e pelo IBBY.