
O Senhor Outono e o Lagarto Amigo das Palavras
Higino, Nuno - Porto, Campo das Letras, 2002
A passagem da luz demasiado viva do solstício de verão para uma outra mais esbatida, a do equinócio outonal, confere à paisagem uma súbita imponderabilidade inundada por uma aura que dilui imperfeições em favor dos contornos.
É nesta atmosfera propícia ao sonho e ao devaneio que Nuno Higino coloca três personagens do universo do primordial: o poeta, a criança e o anjo. É uma união na essência das coisas, na inocência. É nesta antecâmara de repouso hibernatório da Natureza que aparece um Lagarto, de profissão pintor de folhas.
Se o Anjo e o Poeta respondem a muitas interrogações da Criança, o Lagarto é a âncora à Realidade, tornando-se o companheiro de brincadeiras do miúdo. Este último é alvo de partidas quando nas suas folhas aparecem misturadas palavras. E então aprende, o bicho, que há palavras rasteiras e palavras voadoras. O anjo dá uma ajudinha referindo dente-de-leão. Ao tocar-lhe com a cauda, o lagarto liberta as pétalas e com elas as palavras.
No fim do Outono o Lagarto hibernou levando consigo as palavras da Criança, o Poeta recolheu as palavras soltas e o Anjo subiu mais alto para proteger do Inverno os meninos do Mundo.
A ilustração da Márcia Luças, a sépia e a azul, é figurativa na Criança e no Lagarto, com maior estilização nos outros componentes do Texto. A escolha do azul e da sépia coloca os acontecimentos no universo do sonho e da memória, renovável cada para novos actores.
A partir dos 8 anos
Manuela Maldonado
| O Autor
Nuno Higino nasceu em 16/07/1960 em Sendim, Felgueiras. Ordenado padre em 1985. <br><br>Durante 4 anos foi educador e professor de português no Seminário do Bom Pastor. Entre Novembro de 1988 e Setembro de 2001 foi pároco de Fornos, Marco de Canaveses, tempo durante o qual foi construída a Igreja de Santa Maria, com projecto de Álvaro Siza Vieira. |