O soldado romano
Bessa-Luís, Agustina - Porto: Ambar, 2004

 

A protagonista, que é a narradora, relembra as épocas setembrinas que passava com a prima Alice em Cavaleiros, uma zona campestre, perto do mar, em plena província minhota. Pré-adolescentes, muito imaginativas as duas, inventavam personagens fantasmáticas a partir de lendas locais. A narradora tem o dom de subjugar o irmão mais velho e outros conhecidos crédulos através de citações da Bíblia de que é profunda conhecedora. Esta faceta vai aperfeiçoar-se nos diversos episódios desta narrativa que se sucedem em férias estivais.
O discurso é entrecortado por apreciações e opiniões sobre lugares e pessoas, bem ao modo de Agustina e, neste caso, tanto mais adequado tendo em conta o receptor da narrativa.
A quinta é frequentada ainda pelos amigos do irmão mais velho que se deslocam da Póvoa do Varzim, mas cada sexo tem os seus territórios. Do outro lado da propriedade ficava a Aldeia dos Corvos e, junto dela, erguia-se o monte da Cividade onde existiu o quartel de romanos e donde se via o mar. O local causava calafrios devido às lendas que circulavam e, nem as fogueiras onde os meninos assavam batatas acalmavam os temores. Engrossavam-nos, ouvindo-se os romanos a marchar e as couraças a ranger… Foi então que a menina sentiu crescer o seu poder de assustar os outros porque, como a casa de habitação tinha alçapões, comunicantes com as adegas e as cortes de gado, ouviam-se ruídos estranhos de noite. Aproveitava esses acontecimentos e assustava o irmão e a criadagem ingénua do solar.
Um outro passeio regular das duas primas era à capela da Senhora das Neves. A ermida ficava perto de uma floresta, pertença da aldeia. A Senhora era uma imagenzinha de madeira a quem a zeladora mudava, todas as semanas, as vestimentas preciosas guardadas num bauzinho verde. As meninas gostavam de participar na cerimónia até que um dia, a imagem desaparece. É resgatada atrás de um monte de lenha ao pé do anjo Gabriel vestido de soldado romano. A narradora aproveita a ocasião para fazer do soldado romano o seu guarda e é apoiada pelo tio António, um parente gozador da vida e irresponsável que aparece de vez em quando. Esta sobrinha agrada-lhe sobremaneira, desprezando o sobrinho sem imaginação.
Um último episódio sobre a lenda do romano acontece quando o referido tio aparece no solar com um Buick verde descapotável, emprestado, e leva os sobrinhos para uma corrida na recta do Mindelo. Ao acontecer uma avaria na Apúlia, a menina chama a atenção do irmão para os romanos, à beira-mar, com os cascos na cabeça e as saias curtas. O tio apoia a sobrinha, embora os dois soubessem que eram os sargaceiros.
Nestas férias a menina viu fazer pão, como se secavam os figos em tabuleiros, se corava o linho e espadelava; além de ter assistido ao nascimento de um vitelo e de ter pisado uvas no lagar.
Apesar das férias inesquecíveis, as garotas, na pré-puberdade, de vez em quando, choravam sem saber porquê, ou porque um cão morreu de esgana, ou porque os brinquedos se estragaram, ou porque a mãe da narradora, devendo estar também presente noutras propriedades, chegava e partia. É um modo delicado e subtil de explicar a passagem da infância para a puberdade!...
O ilustrador, Chico, opta por uma figuração exemplificadora do texto em forma de prolongamento visual. Porém, a interioridade das personagens é magnificamente interpretada na gestualidade corporal, sobretudo facial, imprimindo uma cinesia definidora das emoções. O índigo e o azul são os tons preferidos para o outro lado do Real, o inalcançável para alguns. O castanho e o verde exprimem as principais tonalidades do mundo rural.

A partir dos 8 anos

Manuela Maldonado

 

O Autor

Agustina nasceu em Vila Meã, em 1922. Embora tenha exercido actividades públicas como Directora do Teatro Nacional Dª. Maria II e ter sido membro da Academia de Ciências de Lisboa, entre outros desempenhos, consagrou-se inteiramente à criação literária. A sua primeira grande narrativa “A Sibila”, ganhou o prémio Delfim Guimarães, e “O Mosteiro” foi galardoado com o Prémio D. Dinis. No entanto, ao longo de uma actividade literária de dezenas de obras, outros grandes prémios conquistou.
Manuel de Oliveira transpôs vários romances para cinema. Do seu acervo literário faz parte esta obra para crianças.