O tubarão na banheira
Machado, David – Lisboa: Editorial Presença, 2009

 

Com este livro, David Machado volta a surpreender-nos com a sua imaginação criadora de grande alcance pedagógico sabendo-se ler nas entrelinhas.
Um neto e um avô são os protagonistas do narrado para quem o mundo se apresenta maior do que é, devido à imaginação do primeiro e à visão defeituosa do segundo, portador de óculos bem graduados.
Tudo começa quando o avô parte os óculos e, no desejo de achar os suplementares corre a casa com o neto. Ao chegar ao sótão, o lugar dos desejos e dos afectos, a atenção de ambos prende-se num aquário coberto de pó. Decidem retornar às suas funções o objecto encontrado e, depois de limpo, ainda sem se terem achado os óculos, resolvem ir à pesca. Pescam um peixinho que baptizam de Osvaldo. No dia seguinte decidem encontrar um companheiro para o peixe e, desta feita, sai um bem maior. As duas criaturas aquáticas não se entendem e o neto resolve levar o peixe maior para mostrar na escola, mas a aventura corre mal, decidindo restituí-lo à água. Mas, dada a solidão de Osvaldo, os dois voltam à pesca e trazem um peixe de algum porte que tem de ir para a banheira. Entretanto os óculos suplentes são encontrados numa lata de bolachas e o avô, estupefacto, com uma visão aumentada, diz que está uma baleia na banheira!...
Toda esta narrativa se encontra entrosada num caderno original de palavras difíceis, pertença do neto, que é o narrador, palavras essas funcionando como descodificações psicológicas de situações, pessoas, criaturas. E, por isso, como se trata da aprendizagem de lexemas e se fala de um caderno, as primeiras e últimas páginas do livro levaram o ilustrador a apresentar um símile dos chamados “35 linhas” onde, há uns anos atrás, se traçavam boas caligrafias. O designer aproveita esse símile para nele inscrever a ficha técnica, o título do livro, os nomes do escritor, do ilustrador e da editora.
O texto icónico, de traço em movimento, da autoria de Paulo Galindro, e o design das páginas asseguram o êxito deste volume. As últimas páginas do caderno contam, em banda desenhada, toda a história, no desenho infantil do neto.
Interessante a interpretação icónica do título da obra na capa e na contra-capa: na primeira, a realidade do “tubarão” é velada por uma cortina opaca; na segunda, a cortina caída, o chuveiro quebrado, a banheira vazia, a ausência do aquário na prateleira remetem-nos para um acordar abrupto do sonho.

 

A partir dos 8 anos

Manuela Maldonado

 

Biobibliografia

David Machado nasceu em 1978. Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia e Gestão de Lisboa, foi-lhe atribuído em 2005 pela Fundação Calouste Gulbenkian/Semanário Expresso o Prémio Branquinho da Fonseca, com o livro acima referido. Outros prémios lhe têm sido concedidos e o conto “O Fantástico Verão do Café Lanterna” foi publicado pela Editora Coolbooks em 2004. Em Setembro de 2006 apareceu nas livrarias o seu primeiro romance para adultos “O Fabuloso Teatro do Gigante”.