O Último Hotel
Lewis, J. Patrick - Porto: Ambar, 2002

 

É um dos volumes sugeridos no Plano Nacional de Leitura e, apesar de datar de 2002, merece uma análise profunda pelos momentos de grande fruição estética: pela sua estrutura, pela linguagem poética, pelo texto icónico, pelo design gráfico.
Antecedendo a narrativa, há uma espécie de prefácio em que um pintor, o narrador dos acontecimentos subsequentes, num pré-texto, que é um pretexto, anuncia que a sua imaginação foi de férias e é preciso recuperá-la porque “nunca mais voltou”. Numa tarde de modorra, sacode a preguiça, faz as malas, mete-se no Renault vermelho, a cor do ímpeto e da paixão, e inicia a viagem. Compulsivamente, o carro leva-o por determinadas veredas até um edifício no pináculo de um monte, lá no fim do mundo. A narrativa passa a um tipo de grafemas mais pequenos e, perante o narrador e o narratário vão surgindo uma série de figuras do “déjà vu” da ficção fantasiosa, reconhecíveis quer pelas roupagens, quer pelas atitudes, todas instaladas ou a caminho da mansão, vista como último reduto. A estranheza começa logo na portaria do hotel em que o recepcionista é um papagaio marinho. Cada quarto é decorado segundo a personalidade do hóspede. Por exemplo, o do Senhor Cinzento Acinzentado é preto e branco.
Além desta figura, que fuma cachimbo e é detective, o pintor vai coabitar com as mais diversas personagens como o rapaz que pescava mensagens, o marinheiro de perna-de-pau que assina com a cruz dos piratas, a jovem frágil numa cadeira de rodas que tem de ser banhada todos os dias, o vagabundo de chapéu de vaqueiro que tem um mapa valioso, o aviador destemido que cruza os céus, o homem empoleirado numa árvore donde vê o mundo, o cavaleiro dos moinhos de vento.
Tal como à entrada, será também à saída que o recepcionista-papagaio vai desencadear as respostas às perguntas que o narrador faz a si próprio sobre o significado dos actos dos outros hóspedes no seu quotidiano, pedindo ao detective que seleccione entre vários conceitos aquele que é o definidor de cada um. E é assim que o pintor entende que todas elas estiveram sempre em busca de si-mesmas, mostrando-lhe o caminho da auto-descoberta e, por consequência, é altura de recuperar a sua imaginação em errância.
As personagens da “imaginação em férias”, para os leitores assíduos da ficção literária, são facilmente identificáveis. Mas, para quem não está tão familiarizado, J. Patrick Lewis escreve um posfácio onde as identifica e desafia os leitores a encaixá-las noutras obras.
Isabel Ramalhete faz uma tradução muito ajustada perante dois códigos em presença, conservando a qualidade do original. A ilustração de Roberto Innocenti, optando pelo desenho figurativo de interiores e exteriores, de pendor cinético, num cromatismo de aguarela, insere-se num revivalismo das excelentes ilustrações de finais do século XIX da literatura infanto-juvenil como o Pinóquio, volumes de Júlio Verne, entre outros. A ilustração ora ocupa páginas inteiras ora dialoga com o texto escrito nas mais diversificadas posições que o design gráfico proporciona.

A partir dos 12 anos

Manuela Maldonado

 

O Autor

J. Patrick Lewis é um contador de histórias afamado e autor de muitos livros para crianças, incluindo Boshblobberbosh e The Shoe Tree of Chagrin. Pelo seu estilo poético, os seus livros têm recebido o aplauso da crítica e conquistado recensões excelentes em publicações como a Horn Book Magazine e Booklist.
Vive em Chagrin Falls, Ohio, Estados Unidos.