Os Cavalos a Correr
Baptista, Amadeu - Vila Nova de Gaia: Trinta por uma linha, 2008

 

Se, por natureza, o cavalo é um animal associado ao trote e ao galope, na redundância do título existe um apelo de imaginação à solta. O poeta é um cavalo sem freios, que fala dos seus pares em estrofes irregulares, muito ritmadas, de um modo encantatório. Ele acompanha as crianças, o primordial, na sua viagem para o sul, o ponto edénico da rosa dos ventos; assume-se como a brisa poética (Galope); implica-se num quotidiano como um visionário (Nobreza); caminha dentro de si n’A rota do infinito; fala de primeiros passos na aventura poética (Gaiatos); inscreve-se numa maternidade dolorosa para os poemas verem a luz (Maternidade); revela a difícil e laboriosa tessitura dos seus poemas (Alta-Escola).
A par destas assunções, que constituem o acto criador do poeta, há um outro aspecto do livro assaz interessante que integra a leitura pessoal de cavalos célebres pertencentes a heróis ou a artistas cujo sonho tornou mais rica e luminosa a condição humana. Refiro-me a “Pégaso”, a própria poesia entendida do nascimento na rocha à manifestação alada; a “O Cavalo de Tróia” no que representa da capacidade da razão imaginante; a “Incitatus”, cavalo de Calígula, expressão de loucura castradora; a “Kafka”, símile de imaginação inconcebível; a “Frederico Garcia Lorca”, o rasgador de limites como o canto jondo; a “Juan Ramón Jiménez”, o demolidor da ténue fronteira entre o Real e o Imaginário.
Há ainda poemas relativos a representações equinas de pintores, onde sobressaem: “O Ginete de Rembrandt”, a procura do oculto; “Franz Marc”, a metamorfose artística.
Ilustrado por Estela Costa, o movimento do traço acompanha o ritmo dos poemas, sendo que no último, intitulado “Cavalinho”, a figuração é estática: o poeta chegou ao fim do seu labor e, na garupa do equídeo “cresce um ninho de hera”, a coroa do trabalho acabado, temporariamente, dado que o chamamento da inspiração, sob a forma de “cavalinho…, cavalinho…”, remete para outras andanças a que as reticências emprestam uma infinitude durativa.
O cromatismo no design, bem como a paginação de Anabela Dias indiciam uma sábia escolha da representação do sonho e da irrealidade.
No final do livro, há um pequeno glossário de alcance pedagógico.

A partir dos 10 anos

Manuela Maldonado

 

O Autor

Amadeu Baptista (Porto, 6 de Maio de 1953) é um poeta português. Frequentou a faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Poemas seus foram traduzidos para várias línguas. É divulgador em Portugal de poetas espanhóis e hispano-americanos, tendo também prefaciado Terra Além Mar, antologia poética do autor brasileiro Iacyr Anderson Freitas, publicada em Portugal em 2005. Tem colaboração dispersa em jornais, revistas, antologias e livros colectivos, em Portugal e no estrangeiro. Está representado em diversas antologias e livros colectivos.
É membro da Associação Portuguesa de Escritores e do Pen Club Português.