
Os livros que devoraram o meu pai
Cruz, Afonso – Lisboa: Caminho, 2010
Livro muito interessante para jovens já possuidores de um certo cânone de leituras universais. No entanto, o desconhecimento não é proibitivo da sua leitura visto haver inúmeras explicações sobre as obras e, de certa forma, haver um incentivo para as ler.
Logicamente, o sub-título deveria ser o título, mas a inversão dos dois provoca uma estranheza digna de um grande criador de universos ficcionais. Também a junção de Vivaldo Bonfim é um desafio de análise sémica sobre a vida e a morte, esta última expurgada de conotação negativa porque Bom Fim.
Vivaldo é um escriturário de repartição de Finanças, mau funcionário, que quebra o tédio dos formulários metendo no meio da papelada novelas e romances. Lê o dia inteiro. Um dia desaparece no mundo romanesco, embora a versão oficial seja a de um enfarte súbito, antes do nascimento do filho. Com nome de profeta, Elias é um narrador na primeira pessoa que parte numa busca incessante do progenitor, a partir dos 12 anos, através da apropriação intelectual dos títulos da biblioteca paterna. O jovem Elias tem um percurso rotineiro de casa para a escola e vice-versa, preza o seu amigo Bombo, que se exprime por histórias chinesas, adora a colega Beatriz, a sua paixoneta, uma avó paterna que lhe dá a chave da biblioteca de Vivaldo, uma mãe preocupada; todavia, ao entrar no universo paralelo da literatura, em busca do pai, desenrola-se um percurso policial que começa n’A ilha do Dr. Moreau, de Wells, segue com O Estranho caso do Dr. Jekyll e de Mr. Hyde, de Stevenson, Passa pelo Crime e Castigo de Dostoievski, pel’O Barão Trepador de Italo Calvino e por Fahrenheit 451 de Bradbury. No percurso, conhece ambientes de alguns dos livros como Londres e Vladivostok, sempre acompanhado por uma personagem do primeiro livro, Edward Prendick, transformado em cão por opção própria, frente ao desencanto que sente pela condição humana. Na procura paterna, aparece sobretudo o lado obscuro e malvado do homem personificados em Hyde e Raskolnikov, este último personagem de Dostoievski. Esta aventura sem êxito leva-o a apropriar-se de uma biblioteca inteira.
Esta experiência foi registada aos treze anos por Elias que, aos 72, no epílogo, confessa ter encontrado o pai quando teve nos braços o seu próprio filho e que ainda chora de remorsos por ter causado involuntariamente a morte de Bombo ao disputar Beatriz, pois todos temos Hyde na cabeça.
Como é corrente nos livros para jovens, só a capa e a contra-capa apresentam ilustração. Na primeira destaca-se Prendick, o lorde inglês com focinho de cão, companheiro fiel desta viagem fantástica. Tanto na capa como no verso há motivos florais e borboletas presentes nas narrativas chinesas de Bombo.
A partir dos 15 anos
Manuela Maldonado
| Biobibliografia Afonso Cruz é escritor, ilustrador e realizador de filmes de animação. |