
Pela Floresta
Browne, Anthony - Matosinhos: Kalandraka, 2008
Pegando na história tradicional do Capuchinho Vermelho, A. Browne subverteu-a em grande medida pela assunção de um herói masculino, pelo tom eufórico do final em que a criança encontra a avó doente viva e o pai que partira inexplicavelmente, colocando-a, deste modo, na actualidade num problema muito recorrente: a separação de um casal.
Aproveitando a narrativa tradicional e porque autor e ilustrador são a mesma pessoa, a trama desvia-se, do original, em prol de uma outra tese a demonstrar. Começando pelo título, os semas da palavra floresta indiciam escuridão, desconhecido, mistério…E se lhe antepusermos “Pela”, então tudo indica uma viagem a encetar, individualmente, no reino dos medos, à procura da esperança perdida. Assim, as primeiras páginas são ocupadas por uma legenda e por uma grande ilustração de cores sombrias, tipo aguarela, com um garoto soerguido na cama atormentado por uma borrasca que se espelha na janela: pressente-se que a sua harmonia existentencial vai sofrer um abalo. Na verdade, o pai deixa a casa e a mãe não sabe se ele volta. Na tentativa de restaurar um certo equilíbrio afectivo no filho, manda-o entregar um bolo em casa da avó doente, tendo de superar alguns desafios: o facto de ir só, as contingências de uma viagem por terrenos desconhecidos, a incerteza da chegada. Pelo caminho vê outras crianças, de tom escuro, talvez os duplos dos seus receios. A casa da avó, como um outro pólo de afectos, vai ser o lugar de reencontro com o pai. A harmonia restabelece-se.
O código icónico prevalece sobre o código escrito dado que a imagem, nos propósitos do livro, traduz com maior eficácia toda a problemática de um lar temporariamente desfeito: a cadeira vazia do pai à mesa; o rosto angustiado da mãe; a expressão de orfandade do filho; o acolhimento do tamanho do mundo em casa da avó. <br><br>De relevar o facto das cores vivas dos dois lugares afectivos da criança contrastarem com o negro e o branco da floresta, devido à ausência de experiências anteriores. Interessante é que o branco é o caminho e os tons escuros são o desconhecido a evitar. Há duas personagens privilegiadas com a cor vermelha dos afectos fortes, representada nos sapatos e na parka do garoto, remando contra ventos e marés e na camisola da mãe, a guardiã do tesouro da ternura e do amor incondicional.
A partir dos 8 anos
Manuela Maldonado
| O Autor
Anthony Browne é um grande autor e ilustrador inglês de livros infantis, somando cerca de 40 títulos editados. Foi aluno do Leeds Art College, tendo-se licenciado em artes gráficas no ano de 1967. |