Romance do Grande Gatão
Jorge, Lídia - Lisboa: D. Quixote, 2010

 

Na era da globalização multiplicam-se situações peculiares, não vivenciadas há uns anos atrás. E, nessa medida, a literatura infanto-juvenil experimenta novos caminhos, procurando na criação artística a sua abordagem. Uma das situações é a aprendizagem da convivência entre pessoas de raças e culturas diferentes, emigradas por razões económicas, políticas ou religiosas.
Da pena de Lídia Jorge surge “Romance do Grande Gatão”, uma pequena obra-prima.
Partindo do aumentativo – Gatão e do diminutivo – murete, constrói uma narrativa interessantíssima, sob a forma da autobiografia de um felino. O aumentativo Gatão não lhe é concedido pelo seu porte, mas porque será o protagonista de uma sã convivência entre duas famílias que se antagonizam por estatutos e proveniências diferentes. Separadas por um murete, que é uma fronteira transponível e não irredutível, encontram-se duas vivendas, nos arredores de um grande centro urbano. No número 30 vive uma família de raça branca, casal e dois filhos, num imóvel recentemente restaurado; no 32, mora uma família africana constituída por dois casais, sete crianças e uma mãe negra, cozinheira de mão cheia, numa casa degradada que ocuparam.
Se no nº 30 há regras de comportamento, no 32 é uma anarquia perfeita quanto a horas, refeições, grande inveja dos meninos brancos. A autobiografia inicia-se pela apresentação do Gatão, inquilino no número 30, que diz ser bem tratado, miando para comer, ronronando para agradecer. De seguida, em flash-back, conta como foi parar ao local, continuando com episódios do seu nascimento e crescimento. A vida decorre monótona e só descobre o mundo quando consegue subir à romãzeira do quintal dos donos e encara a vivenda dos africanos donde saem cheiros deliciosos e observa a liberdade de horários dos habitantes, porque ele próprio é vítima das horas impostas pelos donos. Pela facilidade de transpor o murete, passa a viver mimado dos dois lados. Transposto o murete, as crianças dos dois lados vão confraternizando a pretexto de procurar o Gatão. Um pouco depois as famílias, isto é, os adultos, chegam à fala pela necessidade de castrar o animal. Mas este, chegada a sua hora biológica, hipnotizado pelo luar e pelo miar dos outros companheiros, vai à aventura e … faz-se adulto.
Se a liberdade escolhida é gratificante, nem tanto a falta de vitualhas, e das boas, a que estava habituado. À noite passa pelas duas vivendas e vai sobrevivendo.
Numa luta com um gato selvagem sai maltratado, arrastando-se até ao murete. As duas famílias acolhem-no, servindo a convalescença para estreitar laços entre famílias tão diferentes, com cedências mútuas.
A par de um texto plurissignificativo, porque literário, há a ilustração de Danuta Wojciechowska, uma grande senhora dos textos icónicos. Privilegia, na capa, a romã e o gato, dado que foi daí que o mundo se abriu ao felino. No interior predominam estilizações do protagonista, aparecendo ora como continente das personagens, dado o seu estatuto mediador, ora como conteúdo da cena, porque também é um elemento do universo ficcional. O traço figurativo, a paleta cromática e o design valorizam a escrita, implicando-se nela, sem desejos protagonistas.

 

A partir dos 7 anos

Manuela Maldonado

 

Biobibliografia:
Lídia Jorge nasceu no Algarve em 1946.
O seu primeiro livro " O Dia dos Prodígios" (1980), foi um acontecimento literário importante. Outros se seguiram. "A Costa dos Murmúrios", em 1988, sobre a guerra colonial foi tema de um filme recentemente. Além de narrativa também escreveu no género dramático.
Entre os prémios recebidos, destaque-se o Bordallo de Literatura da Casa da Imprensa pela sua obra "O Jardim sem limites". Está traduzida em várias línguas.