Três histórias do futuro
SOARES, Luísa Ducla - Porto: Civilização, 2004

 

O livro Três histórias do Futuro, escrito por Luisa Ducla Soares e já publicado em 1982, volta às nossas estantes, agora uma obra com interesse renovado, incluída na edição da Obra Completa da autora.
É, desde logo, um objecto atractivo, quando manuseado de capa a contracapa, embora o texto de apresentação escrito na contracapa (“Diverte-te a pensar sobre os grandes problema do nosso tempo”) possa afastar alguns possíveis jovens leitores. É que uma criança mais atenta pode ser levada a afastá-lo antes de o folhear – lá vem mais uma “lição divertida” sobre os problemas que os adultos criaram...
Efectivamente, os textos de Luísa Ducla Soares são muito mais que isso. São histórias que levam os seus leitores a pensar de forma divertida, é certo! Mas são sobretudo textos que revelam um domínio admirável da Língua Portuguesa e uma criatividade muito própria, já inconfundível, e que conseguem prender o jovem leitor, não só ao assunto, mas à sintaxe que a sua curta experiência domina e que está a ser enriquecida de uma forma atractiva, bem próxima do que conhece. Não é necessário dizer-se que neste livro há um conto para abordar o problema da poluição para interessar uma criança numa história que começa assim – “No século vinte e sete, na cidade de Alcochete, vivia o Sr. Roquete, que vendia sabonete”. Desde logo esta música das palavras entra pelos olhos/ouvidos do jovem leitor e leva-o a continuar, porque com esta autora as letras organizam-se em palavras com “música”, e as palavras formam períodos curtos, bem à medida de quem começou a ler há pouco tempo e que, por isso, não deve tropeçar em grandes dificuldades que tornem esta tarefa quase impossível. É que começar a ler livros sozinho é, só por si, suficientemente complicado...
É claro que muitas outras leituras se podem fazer nestes textos, escritos por quem conhece crianças por dentro! Não nos surpreende que, mesmo histórias que abordam “grandes problemas”, terminem de forma que não deixam os jovens desanimados face ao que leram. É que a autora deixa bem claro que só a intervenção crítica e construtiva dos Homens (adultos e crianças) pode contribuir para alterar as coisas. No conto “Um filho por encomenda”, D. Malaquias, um grande senhor dos tempos modernos, mandou produzir um príncipe perfeito. Ao preocuparem-se apenas com o “desenvolvimento perfeito de um clone”, valores como a sua forma de “nascer e crescer” tinham sido esquecidos. Coisa tão simples como ter um nome... No final, pai e filho prosseguem juntos a caminhada da vida, agora com um menino com nome – “Felício Máquina Malaquias (para ter também o nome da sua mãe e do seu pai)”.
Há ainda nestes textos um pormenor a que os jovens leitores são muito sensíveis: o uso dos números para clarificar as descrições – são as 2500 escavadoras na primeira história, os deliciosos 97 postos de rádio, 200 canais de televisão, 70216 orfanatos… entre outros. Tropeçar, no meio das letras, com estes algarismos a designarem quantidades que fazem pensar, é uma característica de alguns textos da autora que os leitores principiantes apreciam sobremaneira.
E neste objecto que manuseámos há ainda muito para “ler”. As deliciosas guardas do livro “embrulham-no” num ambiente de futuro com uma certa ironia/irreverência que começa a cativar. E desde logo ficamos mais curiosos para o folhear. E a curiosidade transforma-se em agrado, pois as ilustrações introduzem-nos no mundo que a leitura das histórias irá desvendar, sem as enfeitar, mas antes dando-nos indicações para pormenores a que acederemos mais tarde – é o pedaço da Torre de Belém entre a escavadora laranja a “dizer-nos” que estamos em Lisboa, na primeira história, a figura do Sr. Roquete que saltou para o “super-foguete”, na segunda e o delicioso contraste das caras dos adultos e das crianças em toda a ilustração... Paul Driver aguça-nos o interesse pelas histórias que iremos ler neste livro, numa obra que só podia terminar com o humor e a ternura da última ilustração em que rei e príncipe, de mão dada e olhando-se nos olhos, iniciam um caminho com futuro!

 

Maria José Reis