
Um cantinho no Paraíso
Almond, David - Lisboa: Presença, 2007
Este autor britânico, de que já outras recensões figuraram no Solta Palavra, é um dos melhores analistas e efabuladores para a adolescência dos aspectos da fragilidade da condição humana. Porém, nas suas narrativas, há sempre um timbre de esperança num futuro próximo ou longínquo, pela determinação dos protagonistas. A nota dominante do viés preferido do autor é a do Abandono, ou pela desistência de si próprio ou pelo egoísmo do Outro. Escritor varias vezes premiado, foi agraciado, por este livro, com o Silver Pencil Award.
A narradora é uma adolescente, Erin Law, que vive num orfanato, White Gates, por morte da mãe, único parente. Há uma dezena de outras crianças, fruto de abandono por circunstâncias de vida adversas ou por maus tratos. Os companheiros preferidos de Erin são Januário Carr, deixado à porta de um hospital e Rato Gullane, de seu nome Sean, inseparável de um roedor, o Guincho. Gullane foi abandonado na rua pelo pai, embora com uma tatuagem a pedir que cuidem dele. Maureen, a supervisora, é uma pessoa amarga pela perda do único filho, pensando que as sessões de psicoterapia são o lenitivo para a revolta solitária ou colectiva dos seus pupilos. Todavia, a grande terapia são as escapadelas, sós ou em grupo, para o mundo circundante, acabando sempre por um regresso pelas decepções no exterior que abrem novas feridas. O empreendedor Januário, um dos mais revoltados por desconhecer as circunstâncias do seu abandono, resolve construir uma jangada a partir de três portas velhas encontradas em arrumos. Convida Erin a navegar no rio que banha a cidade, ainda que seja um caudal perigoso pelas correntes e zonas pantanosas. Junta-se-lhes o rato Gullane. Alcançam, depois de várias peripécias, a outra margem, nos subúrbios da urb que é a imagem desolada e desoladora de uma prosperidade antiga, sobretudo fabril, de que as ruínas são emblema. A cidade vive virada egoisticamente para o seu interior, ignorando uma periferia decrépita. Encalhados nos pântanos, os Middens, encontram um ancião, o Avô, e uma menina pequena, a Olhos Celestes, salva por ele das águas e que, misteriosamente, apresenta membranas entre os dedos dos pés e das mãos. A sua linguagem é muito imperfeita, o que pode ser pela sua idade ou pelos silencias do Avô, homem de poucas falas, que passa o tempo a arquivar em caixotes o que encontra nos Middens ou a escrever o diário na tipografia. O diário contém as suas observações quotidianas no sentido de “um testemunho para memória futura”. Com a vinda dos jovens, a visão fantasmagórica da outra margem desvanece-se na criança e o Avô, comprida a sua missão morre. Os arquivos do ancião são levados por Januário para pesquisa futura, viajando com eles a Olhos Celestes até ao orfanato. Mas, à partida, há sinais de esperança: gruas e guindastes perfilam-se no céu para transformar a zona degradada. Januário reencontra a mãe, vai viver com ela depois das explicações convincentes, Erin continua acompanhada pelo espírito da progenitora, o Gullane continua com o seu Guincho, a Olhos Celestes conquista irmãos e irmã com que sempre sonhara, e vão crescendo…
Além do toque de mistério dado pelas membranas nas mãos e nos pés da Olhos Celestes, há outro de fantasmagoria quando o Avô morre depois da descoberta do cadáver do Santo, figura há muito procurada na lama pelo ancião mas levada a cabo pelo rato Gullane, o menino conformado. O Santo recobra vida e leva o espírito do Avô com ele para o rio, rumo ao mar, já desencarnado do corpo…
A narrativa é aberta como indica a narradora: “como todas as histórias, também esta não tem um verdadeiro final. Continua indefinidamente e funde-se com todas as outras histórias do mundo”.
Como é marca da colecção “Estrela do Mar”, destinada a adolescentes, a ilustração está ausente, apelando-se para as figurações intelectuais e imaginativas de quem lê. A única excepção é a capa que optou por desenhos de prateleiras onde estão depositados os achados do Avô, o seu diário, corroborando a ideia de narrativa aberta, pois o abrir de cada caixa é uma história nova.
A partir dos 12 anos
Manuela Maldonado
| O Autor
David Almond é um dos autores infanto-juvenis de língua inglesa mais talentosos e premiados da actualidade. Foi já distinguido com prémios tão prestigiantes como o Whitbread Children’s Book Award (duas vezes), o Smarties Gold Award e The Carnegie Medal. |