
Um Homem verde num buraco muito fundo
Machado, David – Lisboa: Presença, 2008
Esta narrativa de David Machado é uma alegoria do companheirismo e da entreajuda, situada num espaço de faz-de-conta, com personagens reais e irreais, estas personificadas, em perfeita sintonia.
Dois irmãos – Celeste e Simão, meninos citadinos, vivem em frente a um grande parque, o que lhes permite, ao fim da tarde, feitos os deveres, correr para o pulmão verde, entrando no mundo paralelo das brincadeiras. Geralmente de acordo, o jogo favorito é o dos polícias e ladrões, papéis desempenhados alternadamente. Mas, um dia, ambos querem fazer a mesma personagem e então é preciso arranjar outro companheiro para quebrar o impasse. Na maior parte das vezes cabe à menina a resolução dos problemas porque determinada e imaginativa. Desta vez, pousa os olhos no homem verde do semáforo que, numa via de pouco movimento, se encontra tremendamente aborrecido e, uma vez convidado, sai do alvéolo e entra na brincadeira. Já quanto ao homem de vermelho, as crianças não ousam falar-lhe por causa do seu mau humor. Engrossado para três elementos, o grupo joga não só aos polícias e ladrões como a outras personagens. Para cumprir a sua função de semáforo, o homenzinho verde tem uma bateria alimentadora que ao enfraquecer lhe dá o sinal de retorno à sua tarefa.
Porém, um dia o novo companheiro não retorna de uma brincadeira e, apesar dos esforços dos dois irmãos que perguntam aos vendedores que há no parque, ao guarda e aos passeantes, não o conseguem encontrar. É novamente Celeste que toma a dianteira, mobilizando os homens verdes dos outros semáforos. E leva tempo até o encontrarem no poço de lado Norte, sem luz. Então, os homens pequenos fazem uma cadeia, que é uma escada, até ao fundo do poço: encontram o companheiro, içam-no e fornecem-lhe a energia necessária, tirando da que possuem.
No dia a seguir, no outro, no outro as brincadeiras continuarão com o Homem Verde.
Carla Pott ilustra todo o livro. Na capa coloca uma árvore enorme, de folhas verdes e raízes à mostra, com um passarinho colorido, símbolos do parque. As raízes que rompem da terra significam a longevidade tutelar da vegetação. Lateralmente espreitam as duas crianças, agarradas ao tronco, de olhos bem abertos para além do que os rodeia, se bem que nos olhos de Simão haja mais receio e ansiedade. A forma macrocéfala das crianças é um sinal distintivo das suas faixas etárias.
Na contracapa é o espaço dos Homens Verdes que aparecem na árvore dado que personagens da história.
Muito interessantes os esboços de desenho que precedem e acabam o texto escrito.
O cromatismo utilizado pelo designer nas páginas é um prazer para os olhos, alternando com páginas em branco na altura do desaparecimento do homem verde. Que leituras simbólicas vai permitir a um pedagogo ousado!...
A partir dos 7 anos
Manuela Maldonado
| Biobibliografia David Machado nasceu em 1978. Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia e Gestão de Lisboa, foi-lhe atribuído em 2005 pela Fundação Calouste Gulbenkian/Semanário Expresso o Prémio Branquinho da Fonseca, com o livro acima referido. Outros prémios lhe têm sido concedidos e o conto “O Fantástico Verão do Café Lanterna” foi publicado pela Editora Coolbooks em 2004. Em Setembro de 2006 apareceu nas livrarias o seu primeiro romance para adultos “O Fabuloso Teatro do Gigante”. |