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imóvel mas sempre viva, garante que temos de poetas o que conservamos de
crianças.
E nós sabemos como os poetas da "idade da razão "procuram aceder a uma segunda
natureza onde dominam as pulsões instintivas, a vida arcaica e anímica da
mente, ou seja, a um estado de infância que lhes permita lançar sobre as
coisas um olhar inaugural e fundador. "O homem nasce poeta, as crianças são a prova disso" (Benjamin Péret). Mas
são poucos os que são capazes de, ao longo da vida, arrecadar e guardar esse
naco de infância de que a poesia necessita para fazer o seu ninho. Eu
conservo, pelo menos, uma orelha. A esquerda. É verde. Não amadureceu como o
resto do meu corpo e continua verde. Essa orelha ouve a linguagem das
árvores, dos pássaros, das nuvens, das pedras… A outra, a direita, só ouve o
que lhe interessa. As coisas úteis e exactas. As coisas que servem para
alguma coisa. E a prosa da vida comum, quotidiana. Histórias fantásticas,
poemas, nada disso é com ela, são coisas que lhe soam estranhamente. Quanto
à outra, a esquerda, a verde, a que me ficou dos meus tempos de menino e de
rapaz, continua a entender os mais novos e a ouvir e a ver (pois, ela também
vê, ou, pelo menos, dá-me a ver) coisas maravilhosas que os adultos já não
conseguem distinguir. É essa orelha, quer dizer, essa abertura à vida, que
me permite comunicar com os mais novos como se fossem companheiros da minha
vida primitiva.
M.M. - Nesse reino distante, que pessoas e acontecimentos foram
determinantes nas vivências experimentadas?
A.M. - Não há, nunca haveria espaço para falar dos acontecimentos, mesmo que
só elegesse alguns. Vou falar só de pessoas, de duas delas, as mais
determinantes. Primeiro, a mãe, cuja sensibilidade espiritualizada penso ter
herdado. Mesmo porque ambos nascemos sob a mesma conjugação astral, seja lá
o que isso quer dizer. Ela não lia nem escrevia poesia (a vida real
ocupava-a a tempo inteiro) mas era poeta pela sua delicadeza de percepção da
vida.
Do pai, herdei o gosto pela narração, o desejo de me expressar e, sobretudo,
de dizer as coisas de um modo pessoal. Ele era um narrador singular que não
se limitava a descrever a realidade, antes submetia-a às exigências da
ficção, exagerando, adornando, deformando. Usava a linguagem do maravilhoso,
que é uma linguagem do exagero. "Ver belo é ver grande" (Gaston Bachelard).
Mesmo quando nos lia em voz alta uma notícia de jornal, não resistia a mudar
o que lá estava escrito. Quando íamos procurar a tal notícia extraordinária
que ele nos lera, não a encontrávamos. Não existia.
O pai era um prestidigitador que se inseria no real, (re)interpretando-o.
Tal como o guarda-redes míope de "O Limpa-palavras e outros poemas" , ele
"queria ele lá saber do que tinha acontecido. O que ele queria era saber o
que poderia ter acontecido". Hoje sei que se ele recusava a realidade
objectiva, era porque detectara a falta do seu reflexo, da sua sombra, e
reivindicava a dose de imaginário que fosse capaz de lhe dar, em contra-luz,
uma musculatura de verdade. Porque era isso que ele procurava: a verdade
oculta das coisas. A vida é irreal. E qualquer impressão tida como real só
pode ser transmitida através do literário. Só a literatura, o que
transfigura essa aparência e a torna excedente (excelente) lhe pode conferir
verdadeira realidade. São homens assim que procedem à edificação laboriosa
dos mitos (que, etimologicamente, são "as palavras que ocultam a verdade").
Ainda hoje, quando leio certas descrições literárias ("O tubarão era tão
grande como uma casa de cinco andares, e as suas mandíbulas tão gigantescas
que podiam tragar facilmente um combóio") me parece estar a ouvir a voz do
pai.
M.M. - Nas experiências vivenciais da infância, que parte coube à
aventura individual , solitária, e à colectiva?
A.M. - O maior quinhão coube sem dúvida à aventura individual. Através da
solidão cósmica, descobri a humana condição de ser uma fronteira consciente
situada entre dois mundos: o interior, ou eu indivisível, e o exterior, o
universo ilimitado, interminavelmente multiplicado e dividido. Passava muito
tempo a brincar sozinho, em casa ou na rua, criando um mundo próprio em que
desarrumava as coisas do mundo, dispondo-as segundo uma nova ordem. Enquanto
o real se escoava, a fantasia e o imaginário modelavam o meu ser.
A escola, o grupo social, eram, por vezes realidades indesejáveis. Mas foi
na escola que identifiquei, ainda muito novo, a vocação para a escrita. Um
dos meus professores de português, que muito apreciava as minhas redacções,
falava-me de livros e de poemas mas não me mandava ler, só escrever. O que
eu quisesse. Por quê e para quê é que nunca me explicou e hoje compreendo
que não o poderia ter feito. Foi o que eu fiz, mas durante muito tempo só me
interessei pela poesia. Queria muito merecê-la e passava horas à espera dela
na esperança de que essa espera fosse capaz de a arrancar do nada. De
repente, tinha uma ideia. Excitado, juntava as palavras de um verso e
punha-me a tremer de emoção e alegria. "Será ela? Será ela?"
Foi assim. Às palavras me agarrei como um náufrago se agarra à tábua
salvadora, e aqui estou agora, são e salvo, a contar esta história
verdadeira. Daqui a pouco, quando acabar esta conversa, vou regressar aos
meus papéis e voltar a juntar pequenos feixes de palavras que brilham como
constelações e me levam "ao centro de toda a beleza". O poeta americano
Frank O´Hara escreveu uma "autobiografia literária" que poderia ser a minha:
"Quando era pequeno / brincava sozinho num canto do recreio. / Os animais
fugiam de mim / e os pássaros eram meus inimigos. / Se alguém me chamava, /
escondia-me atrás de uma árvore / e gritava : / "Socorro! Sou um órfão!". /
E aqui estou eu, agora, / o centro de toda a beleza, / escrevendo estes
poemas, estas histórias. / Imaginem!"
M.M.- A relação com os livros é datada quanto à capacidade de
descodificar signos, mas a verdadeira, a da fruição, aparece-lhe quando e em
que circunstâncias?
A.M. - Na infância e adolescência não tive o acesso a livros
facilitado. Não os havia em minha casa, só uns da "Biblioteca das
Raparigas", da minha irmã mais velha (e que, aliás, me estavam vedados por
ela, fechados à chave num armário), mais umas tantas biografias de princesas
e rainhas que ninguém lia. Mas havia diariamente o "Jornal de Notícias", que
frequentava avidamente por causa das páginas do futebol e da página
literária semanal. Graças a esta última, tive então os primeiros contactos
com a verdadeira literatura. Mais tarde, porém, aconteceriam dois encontros
fundamentais com outros tantos livros.. O primeiro foi com "A Ilha do
Tesouro", de Stevenson : "O meu tesouro é um livro, de folhas gastas,
dobradas, onde ainda brilha o ouro de palavras encantadas: guinéus, luizes,
dobrões". Desconheço o acaso que gerou esse encontro feliz, ainda na
primeira adolescência, mas ainda hoje leio esse livro na esperança de que se
"levante um vento leve que enfune os lençóis da cama,/ e cheire a mar, se
ouçam as ondas, / salpicos de espuma volteiem no ar. / Mas já não voam as
palavras que voavam / e me arrastavam para o mar. (…) "Por mais que escute,
já não ouço / a canção dos marinheiros: / "Dez homens em cima da mala do
morto… / Iou, ou, ou, e uma garrafa de rum ".
O outro encontro, igualmente avassalador, decorreu um pouco mais tarde, em
plena adolescência, quando uma namorada me ofereceu uma edição dos anos 60
de "Poemas", de Eugénio de Andrade". Se o primeiro encontro acendeu o meu
fogo de leitor, e talvez também o do narrador, este condenou-me sem remédio
ao desassossego da poesia.
Foram estas as minhas portas de entrada na literatura. Acho eu. Mas é
difícil saber o que realmente devo a estes encontros e também o que devo a
outros, igualmente significativos. A verdade é que cada leitor desconhece
como chegou a ser o que é e o que não é. Nunca se sabem as razões profundas
do fazer, e ainda menos, do ser.
M.M. -A passagem da infância para a adolescência raramente é um contínuo.
É quase sempre uma ruptura. Como aconteceu no seu caso?
A.M. - Não me lembro de nenhuma ruptura significativa, embora não
duvide que as houve. Só posso dizer que a passagem do tempo era um prazer.
Não é difícil encontrar no contínuo temporal a graça original da vida.
Penso nisso agora e ocorre-me apenas a violência do crescimento e da
permanente transformação do corpo. O meu livro mais recente, "Hipopóptimos -
uma história de amor", trata esse tema, tal como de resto acontece num texto
dramático que escrevi recentemente e permanece inédito, "Todos os rapazes
são gatos". Lá se diz: "A quem como nós está a crescer, tudo ou quase tudo
pode acontecer. Um rapaz ou uma rapariga nunca são aquilo que são, estão
sempre a caminho do que vão ser. Como se quisessem fugir deles mesmos".
Assim é, realmente. A criança atravessa a correr a infância, o adolescente
foge da adolescência, o adulto continua a correria e mais adiante, na
"matura idade", passa a repudiar, de algum modo, as ideologias, e como
também já voltou as costas aos domínios do subjectivo, o que nele se passa e
adquire expressão é apenas da ordem do essencial. Como na infância.
M.M. -O adolescente é um mundo de problemas, mas também de generosidade e
pureza de intenções. O que guarda desses tempos?
A.M. - Espero ter também guardado alguma dessa generosidade e pureza
de intenções. Certo é que consegui reter uma parte considerável da
capacidade de sonhar e de brincar. Segundo Paul Auster, a importância das
recordações de infância e adolescência na vida dos criadores, decorre da
hipótese segundo a qual a obra literária, tal como o sonho diurno, seria uma
continuação e um substituto das brincadeiras desses tempos.
Pode ser, mas não se trata apenas de recordar e sentir de súbito "uma
misteriosa felicidade que não vem do lado da esperança mas sim de uma antiga
inocência, da sua própria raiz" (Jorge Luis Borges), tal como não chega
metamorfosear essa memória em imaginação e sonho (em literatura); é também
preciso criar condições para o despertar desses resíduos de actividade
mental animista e incitá-los a manifestarem-se.
Freud afirma que cada estádio do nosso desenvolvimento coexiste com todos os
outros e que, mesmo em adultos, trazemos no fundo de nós a memória do modo
como apreendíamos o mundo na infância e na pré-adolescência. E não apenas a
memória : a própria estrutura dessa percepção permanece intacta. Isto é, tal
como na infância e na adolescência nos tornamos o que agora somos, e
continuamos a ser o que éramos, também na idade adulta podemos ser o que
nesses tempos fomos sem deixar de ser o que agora somos. O tempo faz de nós
pessoas idosas, mas, na verdade, quase não mudamos.
M.M. - A sua obra pode ser encarada como uma visão abrangente da poética
da vida. Assim sendo na construção e tessitura dos textos que lugar ocupa o
legado pessoal da época infanto-juvenil?
A.M. - O menino que eu fui não se cansa de comparecer nos meus
livros. É "o menino chamado menino" e é o Miguel de "Isto é que foi ser!". É
"o guarda redes míope" (O Limpa-palavras e outros poemas), "que não via o
jogo, mas podia imaginá-lo". É "o caçador de borboletas" (O reino perdido)
que "vê tanta beleza à sua volta / que esquece a rede em qualquer lado / e
antes de caçar já foi caçado". E então o rapaz… É o sonhador imaginativo de
"Maldita matemática", uma história que, aliás, lhe é dedicada (está lá
escrito : ao rapaz que eu fui). É o rapaz frágil e contemplativo de
"Hipopóptimos - uma história de amor", o que fazia historias e poemas
enquanto os outros jogavam a bola e subiam às árvores. E é quase sempre o
Joel (às vezes o Jorge) das aventuras da série "Triângulo Jota". E é o Rui
de "A Ilha do Chifre de Ouro", que duvida do que os seus olhos vêem, porque
"metade da vida, exactamente metade da vida, nos é desconhecida".
O legado é pois, imenso, e não cessa de alimentar os meus textos, os quais,
aliás, escrevo com todas as minhas idades dentro. As que tenho,
naturalmente, mas também as que já tive.
M.M.- Em suma, o que é para si escrever em geral e para este universo
jovem em particular?
A.M. - Escrever, em geral, é uma forma particular de felicidade.
Felizmente há muitos mais motivos para não escrever do que para escrever e
eu aproveito alguns deles, mas rapidamente sinto essa espécie de inquietação
e remorso de que fala o escritor Jorge Luis Borges. E lá volto outra vez à
escrita. Nesse sentido, pode considerar-se que é uma fatalidade a que, a
partir de certa altura, já não se pode escapar. Uma espécie de condenação. O
primeiro conselho que Rilke dá ao jovem poeta das suas "cartas a um jovem
poeta" é justamente esse : "Se ainda estiver a tempo, desista". É um bom
conselho, pois é como se lhe dissesse: "Não troque a vida, a verdadeira
vida, pelas palavras que a descrevem". Eis, pois, porque escrevo. E também
porque tenho medo. De quê? De tudo, acho eu. Da morte, mas também da vida. E
tenho medo de perder o ser, de deixar de ser humano.
No entanto, devo também dizer que escrever é, muitas vezes, uma actividade
consoladora. Embora seja um trabalho duro, quase pesado, é um modo
privilegiado (o único que conheço) de procurar a paz e, às vezes,
encontrá-la. Além disso, escrever também satisfaz a minha necessidade de
sonho e de vida inconsciente. Não suporto ficar demasiado tempo no estado
consciente e, sempre que posso, espraio-me no inconsciente, porque lá vive a
raiz do meu ser. Diz-se que um homem enlouqueceria se não pudesse sonhar
durante a noite. Eu acho que enlouqueceria se não sonhasse também durante o
dia.
Finalmente, a escrita para os mais novos, que é a parte mais considerável da
minha actividade, é também, como já disse, um modo de reivindicar e
recuperar a infância. Embora envie as minhas histórias aos meus leitores
mais novos (sem excluir os mais velhos, que também encontram nelas razões
para o seu próprio prazer), elas também se dirigem a esse rapaz que fui e
vou, assim, reencontrando e reconstruindo, certo de que não lhe fui infiel.
Escrevo e a minha infância e a minha adolescência escrevem-se. E,
escrevendo-se, escrevem-me.
FIM
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