CONVERSA COM ÁLVARO MAGALHÃES
- Provocada por Maria Manuela Maldonado


Da vida à escrita, da escrita à vida, a espiral da construção de um "eu" poético, na voz de um grande escritor


M.M. -Qualquer biografia é um invólucro temporizado da pessoa sem os recuos e avanços que motivações, valores e vivências imprimem nesse percurso. Assim, como vê hoje a sua infância?

A.M. - Como um reino perdido. O paraíso de que fui expulso à força demasiado cedo. Agora, é apenas uma porta fechada, a que bato obstinadamente e, às vezes, tento abrir com uma chave de palavras. O que eu sou hoje ficou em grande parte determinado nessa infância que vivi. "No princípio está o fim", disse T.S. Eliot. E não custa a acreditar que assim seja. Se os nossos princípios tivessem sido diferentes, não seríamos de modo algum o que somos e que na verdade já éramos.
A infância é o céu dos vivos, o único que existe, um passageiro estado de graça, mesmo porque cada infância recria a própria infância do mundo. Cesare Pavese vê-a como contemporânea da criação e compara-a com a idade mítica da humanidade. Por sua vez, Gaston Bachelard, que assinala a permanência na alma humana de um núcleo de infância, uma infância


imóvel mas sempre viva, garante que temos de poetas o que conservamos de crianças. E nós sabemos como os poetas da "idade da razão "procuram aceder a uma segunda natureza onde dominam as pulsões instintivas, a vida arcaica e anímica da mente, ou seja, a um estado de infância que lhes permita lançar sobre as coisas um olhar inaugural e fundador. "O homem nasce poeta, as crianças são a prova disso" (Benjamin Péret). Mas são poucos os que são capazes de, ao longo da vida, arrecadar e guardar esse naco de infância de que a poesia necessita para fazer o seu ninho. Eu conservo, pelo menos, uma orelha. A esquerda. É verde. Não amadureceu como o resto do meu corpo e continua verde. Essa orelha ouve a linguagem das árvores, dos pássaros, das nuvens, das pedras… A outra, a direita, só ouve o que lhe interessa. As coisas úteis e exactas. As coisas que servem para alguma coisa. E a prosa da vida comum, quotidiana. Histórias fantásticas, poemas, nada disso é com ela, são coisas que lhe soam estranhamente. Quanto à outra, a esquerda, a verde, a que me ficou dos meus tempos de menino e de rapaz, continua a entender os mais novos e a ouvir e a ver (pois, ela também vê, ou, pelo menos, dá-me a ver) coisas maravilhosas que os adultos já não conseguem distinguir. É essa orelha, quer dizer, essa abertura à vida, que me permite comunicar com os mais novos como se fossem companheiros da minha vida primitiva.

M.M. - Nesse reino distante, que pessoas e acontecimentos foram determinantes nas vivências experimentadas?

A.M. - Não há, nunca haveria espaço para falar dos acontecimentos, mesmo que só elegesse alguns. Vou falar só de pessoas, de duas delas, as mais determinantes. Primeiro, a mãe, cuja sensibilidade espiritualizada penso ter herdado. Mesmo porque ambos nascemos sob a mesma conjugação astral, seja lá o que isso quer dizer. Ela não lia nem escrevia poesia (a vida real ocupava-a a tempo inteiro) mas era poeta pela sua delicadeza de percepção da vida.
Do pai, herdei o gosto pela narração, o desejo de me expressar e, sobretudo, de dizer as coisas de um modo pessoal. Ele era um narrador singular que não se limitava a descrever a realidade, antes submetia-a às exigências da ficção, exagerando, adornando, deformando. Usava a linguagem do maravilhoso, que é uma linguagem do exagero. "Ver belo é ver grande" (Gaston Bachelard). Mesmo quando nos lia em voz alta uma notícia de jornal, não resistia a mudar o que lá estava escrito. Quando íamos procurar a tal notícia extraordinária que ele nos lera, não a encontrávamos. Não existia.
O pai era um prestidigitador que se inseria no real, (re)interpretando-o. Tal como o guarda-redes míope de "O Limpa-palavras e outros poemas" , ele "queria ele lá saber do que tinha acontecido. O que ele queria era saber o que poderia ter acontecido". Hoje sei que se ele recusava a realidade objectiva, era porque detectara a falta do seu reflexo, da sua sombra, e reivindicava a dose de imaginário que fosse capaz de lhe dar, em contra-luz, uma musculatura de verdade. Porque era isso que ele procurava: a verdade oculta das coisas. A vida é irreal. E qualquer impressão tida como real só pode ser transmitida através do literário. Só a literatura, o que transfigura essa aparência e a torna excedente (excelente) lhe pode conferir verdadeira realidade. São homens assim que procedem à edificação laboriosa dos mitos (que, etimologicamente, são "as palavras que ocultam a verdade").
Ainda hoje, quando leio certas descrições literárias ("O tubarão era tão grande como uma casa de cinco andares, e as suas mandíbulas tão gigantescas que podiam tragar facilmente um combóio") me parece estar a ouvir a voz do pai.

M.M. - Nas experiências vivenciais da infância, que parte coube à aventura individual , solitária, e à colectiva?

A.M. - O maior quinhão coube sem dúvida à aventura individual. Através da solidão cósmica, descobri a humana condição de ser uma fronteira consciente situada entre dois mundos: o interior, ou eu indivisível, e o exterior, o universo ilimitado, interminavelmente multiplicado e dividido. Passava muito tempo a brincar sozinho, em casa ou na rua, criando um mundo próprio em que desarrumava as coisas do mundo, dispondo-as segundo uma nova ordem. Enquanto o real se escoava, a fantasia e o imaginário modelavam o meu ser.
A escola, o grupo social, eram, por vezes realidades indesejáveis. Mas foi na escola que identifiquei, ainda muito novo, a vocação para a escrita. Um dos meus professores de português, que muito apreciava as minhas redacções, falava-me de livros e de poemas mas não me mandava ler, só escrever. O que eu quisesse. Por quê e para quê é que nunca me explicou e hoje compreendo que não o poderia ter feito. Foi o que eu fiz, mas durante muito tempo só me interessei pela poesia. Queria muito merecê-la e passava horas à espera dela na esperança de que essa espera fosse capaz de a arrancar do nada. De repente, tinha uma ideia. Excitado, juntava as palavras de um verso e punha-me a tremer de emoção e alegria. "Será ela? Será ela?"
Foi assim. Às palavras me agarrei como um náufrago se agarra à tábua salvadora, e aqui estou agora, são e salvo, a contar esta história verdadeira. Daqui a pouco, quando acabar esta conversa, vou regressar aos meus papéis e voltar a juntar pequenos feixes de palavras que brilham como constelações e me levam "ao centro de toda a beleza". O poeta americano Frank O´Hara escreveu uma "autobiografia literária" que poderia ser a minha: "Quando era pequeno / brincava sozinho num canto do recreio. / Os animais fugiam de mim / e os pássaros eram meus inimigos. / Se alguém me chamava, / escondia-me atrás de uma árvore / e gritava : / "Socorro! Sou um órfão!". / E aqui estou eu, agora, / o centro de toda a beleza, / escrevendo estes poemas, estas histórias. / Imaginem!"

M.M.- A relação com os livros é datada quanto à capacidade de descodificar signos, mas a verdadeira, a da fruição, aparece-lhe quando e em que circunstâncias?
 
A.M. - Na infância e adolescência não tive o acesso a livros facilitado. Não os havia em minha casa, só uns da "Biblioteca das Raparigas", da minha irmã mais velha (e que, aliás, me estavam vedados por ela, fechados à chave num armário), mais umas tantas biografias de princesas e rainhas que ninguém lia. Mas havia diariamente o "Jornal de Notícias", que frequentava avidamente por causa das páginas do futebol e da página literária semanal. Graças a esta última, tive então os primeiros contactos com a verdadeira literatura. Mais tarde, porém, aconteceriam dois encontros fundamentais com outros tantos livros.. O primeiro foi com "A Ilha do Tesouro", de Stevenson : "O meu tesouro é um livro, de folhas gastas, dobradas, onde ainda brilha o ouro de palavras encantadas: guinéus, luizes, dobrões". Desconheço o acaso que gerou esse encontro feliz, ainda na primeira adolescência, mas ainda hoje leio esse livro na esperança de que se "levante um vento leve que enfune os lençóis da cama,/ e cheire a mar, se ouçam as ondas, / salpicos de espuma volteiem no ar. / Mas já não voam as palavras que voavam / e me arrastavam para o mar. (…) "Por mais que escute, já não ouço / a canção dos marinheiros: / "Dez homens em cima da mala do morto… / Iou, ou, ou, e uma garrafa de rum ".
O outro encontro, igualmente avassalador, decorreu um pouco mais tarde, em plena adolescência, quando uma namorada me ofereceu uma edição dos anos 60 de "Poemas", de Eugénio de Andrade". Se o primeiro encontro acendeu o meu fogo de leitor, e talvez também o do narrador, este condenou-me sem remédio ao desassossego da poesia.
Foram estas as minhas portas de entrada na literatura. Acho eu. Mas é difícil saber o que realmente devo a estes encontros e também o que devo a outros, igualmente significativos. A verdade é que cada leitor desconhece como chegou a ser o que é e o que não é. Nunca se sabem as razões profundas do fazer, e ainda menos, do ser.
 
M.M. -A passagem da infância para a adolescência raramente é um contínuo. É quase sempre uma ruptura. Como aconteceu no seu caso?
 
A.M. - Não me lembro de nenhuma ruptura significativa, embora não duvide que as houve. Só posso dizer que a passagem do tempo era um prazer. Não é difícil encontrar no contínuo temporal a graça original da vida.
Penso nisso agora e ocorre-me apenas a violência do crescimento e da permanente transformação do corpo. O meu livro mais recente, "Hipopóptimos - uma história de amor", trata esse tema, tal como de resto acontece num texto dramático que escrevi recentemente e permanece inédito, "Todos os rapazes são gatos". Lá se diz: "A quem como nós está a crescer, tudo ou quase tudo pode acontecer. Um rapaz ou uma rapariga nunca são aquilo que são, estão sempre a caminho do que vão ser. Como se quisessem fugir deles mesmos".
Assim é, realmente. A criança atravessa a correr a infância, o adolescente foge da adolescência, o adulto continua a correria e mais adiante, na "matura idade", passa a repudiar, de algum modo, as ideologias, e como também já voltou as costas aos domínios do subjectivo, o que nele se passa e adquire expressão é apenas da ordem do essencial. Como na infância.
 
M.M. -O adolescente é um mundo de problemas, mas também de generosidade e pureza de intenções. O que guarda desses tempos?
 
A.M. - Espero ter também guardado alguma dessa generosidade e pureza de intenções. Certo é que consegui reter uma parte considerável da capacidade de sonhar e de brincar. Segundo Paul Auster, a importância das recordações de infância e adolescência na vida dos criadores, decorre da hipótese segundo a qual a obra literária, tal como o sonho diurno, seria uma continuação e um substituto das brincadeiras desses tempos.
Pode ser, mas não se trata apenas de recordar e sentir de súbito "uma misteriosa felicidade que não vem do lado da esperança mas sim de uma antiga inocência, da sua própria raiz" (Jorge Luis Borges), tal como não chega metamorfosear essa memória em imaginação e sonho (em literatura); é também preciso criar condições para o despertar desses resíduos de actividade mental animista e incitá-los a manifestarem-se.
Freud afirma que cada estádio do nosso desenvolvimento coexiste com todos os outros e que, mesmo em adultos, trazemos no fundo de nós a memória do modo como apreendíamos o mundo na infância e na pré-adolescência. E não apenas a memória : a própria estrutura dessa percepção permanece intacta. Isto é, tal como na infância e na adolescência nos tornamos o que agora somos, e continuamos a ser o que éramos, também na idade adulta podemos ser o que nesses tempos fomos sem deixar de ser o que agora somos. O tempo faz de nós pessoas idosas, mas, na verdade, quase não mudamos.

M.M. - A sua obra pode ser encarada como uma visão abrangente da poética da vida. Assim sendo na construção e tessitura dos textos que lugar ocupa o legado pessoal da época infanto-juvenil?
 
A.M. - O menino que eu fui não se cansa de comparecer nos meus livros. É "o menino chamado menino" e é o Miguel de "Isto é que foi ser!". É "o guarda redes míope" (O Limpa-palavras e outros poemas), "que não via o jogo, mas podia imaginá-lo". É "o caçador de borboletas" (O reino perdido) que "vê tanta beleza à sua volta / que esquece a rede em qualquer lado / e antes de caçar já foi caçado". E então o rapaz… É o sonhador imaginativo de "Maldita matemática", uma história que, aliás, lhe é dedicada (está lá escrito : ao rapaz que eu fui). É o rapaz frágil e contemplativo de "Hipopóptimos - uma história de amor", o que fazia historias e poemas enquanto os outros jogavam a bola e subiam às árvores. E é quase sempre o Joel (às vezes o Jorge) das aventuras da série "Triângulo Jota". E é o Rui de "A Ilha do Chifre de Ouro", que duvida do que os seus olhos vêem, porque "metade da vida, exactamente metade da vida, nos é desconhecida".
O legado é pois, imenso, e não cessa de alimentar os meus textos, os quais, aliás, escrevo com todas as minhas idades dentro. As que tenho, naturalmente, mas também as que já tive.
 
M.M.- Em suma, o que é para si escrever em geral e para este universo jovem em particular?
 
A.M. - Escrever, em geral, é uma forma particular de felicidade. Felizmente há muitos mais motivos para não escrever do que para escrever e eu aproveito alguns deles, mas rapidamente sinto essa espécie de inquietação e remorso de que fala o escritor Jorge Luis Borges. E lá volto outra vez à escrita. Nesse sentido, pode considerar-se que é uma fatalidade a que, a partir de certa altura, já não se pode escapar. Uma espécie de condenação. O primeiro conselho que Rilke dá ao jovem poeta das suas "cartas a um jovem poeta" é justamente esse : "Se ainda estiver a tempo, desista". É um bom conselho, pois é como se lhe dissesse: "Não troque a vida, a verdadeira vida, pelas palavras que a descrevem". Eis, pois, porque escrevo. E também porque tenho medo. De quê? De tudo, acho eu. Da morte, mas também da vida. E tenho medo de perder o ser, de deixar de ser humano.
No entanto, devo também dizer que escrever é, muitas vezes, uma actividade consoladora. Embora seja um trabalho duro, quase pesado, é um modo privilegiado (o único que conheço) de procurar a paz e, às vezes, encontrá-la. Além disso, escrever também satisfaz a minha necessidade de sonho e de vida inconsciente. Não suporto ficar demasiado tempo no estado consciente e, sempre que posso, espraio-me no inconsciente, porque lá vive a raiz do meu ser. Diz-se que um homem enlouqueceria se não pudesse sonhar durante a noite. Eu acho que enlouqueceria se não sonhasse também durante o dia.
Finalmente, a escrita para os mais novos, que é a parte mais considerável da minha actividade, é também, como já disse, um modo de reivindicar e recuperar a infância. Embora envie as minhas histórias aos meus leitores mais novos (sem excluir os mais velhos, que também encontram nelas razões para o seu próprio prazer), elas também se dirigem a esse rapaz que fui e vou, assim, reencontrando e reconstruindo, certo de que não lhe fui infiel. Escrevo e a minha infância e a minha adolescência escrevem-se. E, escrevendo-se, escrevem-me.
 
 
FIM

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