CONVERSA COM
LUÍSA DUCLA SOARES - Provocada por Maria Manuela Maldonado

. O universo infanto-juvenil é a atmosfera envolvente da sua escrita. Como se sentiu, enquanto tecedora de texto nele implicada?

Comecei a sentir-me envolvida no universo dos mais novos na adolescência. Tinha um irmão dez anos mais novo que eu que detestava todos os livros que lhe davam. Comecei a inventar histórias para ele, feitas à medida do seu gosto, das suas vivências, da sua personalidade. Muitos escritores de literatura infantil dirigem-se à criança que foram ou à criança que idealizam. Eu comecei por me dirigir a uma bem real, contestatária, sempre pronta a criticar aquilo com que não concordava ou que a não satisfazia. Acho que essa minha experiência ( que durou anos ) me obrigou a viver, em grande intimadade, o universo de uma criança.
Fiz depois um interregno, que só foi quebrado com o nascimento dos meus filhos. Então. novamente, foi o contacto directo com os mais novos que me levou a escrever para eles. A criança não existe, existem tantas crianças, todas diferentes e descobrir o mundo delas é algo que me fascina.
Trabalho numa biblioteca onde é proibida a entrada a menores de dezoito anos, ocupo-me todo o dia de assuntos livrescos e eruditos. Quando saio, à tardinha, sinto o apelo do que é simples e natural. Da espontaneidade. Das crianças.



. Há a natureza das Pessoas e a das Coisas. A sua busca segue preferencialmente qual das opções?

Toda a natureza me fascina. A das coisas e a das pessoas. Aliás eu tenho uma concepção muito panteísta do mundo. Somos um todo. Adoro o irmão sol e a irmã lua, o irmão homem desconhecido com que me cruzo na rua, a irmã criança com olhos deslumbrados, o irmão cão, o irmão pássaro, a irmã árvore.

. Os afectos, a razão, a imaginação, a intuição povoam a interioridade do criador. Que peso assumem na sua obra?

Nunca pensei no peso que assumem na minha obra. Quando escrevo, em geral, não penso em nada, deixo-me levar pela aventura de escrever, sem lhe por travão. Depois da obra escrita poderei, como qualquer leitor, reflectir sobre o que escrevi e, em certos casos, reescrever de acordo com o meu sentido crítico.
Mas vejamos…
Talvez sejam frequentemente os afectos que me induzem a pegar numa lapiseira ou a sentar-me diante do computador e escrever. Escrevo por amor, raiva, indignação, muitas vezes. Os afectos desencadeiam uma premência de expressão.
Quanto à razão, prezo-a demais para desejar, em algum momento, ignorá-la. Nos meus escritos procuro manter clarividência, mesmo nos momentos lúdicos, aparentemente de nonsense. Aposto na passagem de testemunho dos valores da cidadania, por exemplo.
A capacidade de imaginar talvez seja a minha principal qualidade. É decerto o meu maior prazer. Mas a imaginação por vezes também traz problemas. Às vezes imagino tantas, tantas coisas, que fico submersa em múltiplos enredos, inumeros desfechos para uma história, uma dúzia de versões de um poema…
Quem não se gaba de ter alguma intuição? Todos a têm ou julgam ter. Eu também. Mas não aposto apenas nela. Gosto de fazer passar as intuições pelo crivo do pensamento crítico. As intuições apressadas levam-nos muitas vezes a um simplismo na abordagem de um assunto, no conhecimento de uma pessoa.

. Com o riso ou o sorriso se esbatem o desagradável, o insólito, o rotineiro. De que modo se integram nos seus escritos?

O riso, de uma certa irreverência e ironia são indubitavelmente elementos muito presentes nos meus escritos. Nem sempre a minha vida tem sido um mar de rosas e mesmo as rosas trazem consigo alguns espinhos. Mas aprendi uma lição com o meu pai, longe, bem longe, nos desvãos da infância. Ele era médico, todo o dia convivia com a doença e a morte. Mas era seu ponto de honra ter sempre um sorriso, uma anedota, uma história engraçada para contar. Lembro-me bem de o ouvir rir, brincando com os doentes no hospital. Por vezes com doentes terminais, para quem aquele riso era o único remédio possível. Lembro-me do seu riso em casa: com ele entrava o sol de roldão, apagando o bafio das rotinas, a arrelia dos pequenos problemas, o azedume de querelas.
"Estar bem disposto é uma obrigação moral !" dizia ele. E eu concordo.
Com um sorriso se podem abordar problemas sérios ou simplesmente jogar, ludicamente. Um sorriso é capaz de se transformar num elo afectivo e efectivo de ligação de pessoas, é capaz de desarmar mais que uma espingarda.
E quem não sabe que rir até faz bem à saúde?
Julgo que pela alegria, pelo riso, é possível conquistar muitos jovens para a leitura, principalmente aqueles que estão fartos de ambientes cinzentos, de rostos carregados e carrancudos, de bafientos moralismos.

. Assiste-se, nos seus livros, ora a um revivalismo do passado, caso das adaptações da literatura oral, ora `comunhão nas conquistas científicas da contemporaneidade. Em que sentido persegue essas duas perspectivas, tendo em conta o público - destinatário?

As duas perspectivas me interessam igualmente.
Que somos nós senão passageiros em trânsito do passado para o futuro? O presente é apenas uma estação em que paramos por um momento. É indispensável não perdermos a memória em relação ao que foi vivido e pensado antigamente. Essa memória fortalece a identidade cultural, é a herança irrecusável que nos foi legada por gerações e gerações. A literatura oral sobreviveu , por vezes ao longo de muitos séculos, por constituir um repositório de arquétipos intemporais, de sabedoria acessível a toda a gente. Gosto de aproveitar a água desse rio imenso, que é a tradição, e fazer com ela os meus cozinhados…
Mas o futuro está à nossa frente, é para ele que caminhamos. Quando aos 14 anos, enredada em indecisões, optei por um futuro ligado às Letras, senti que perdia parte de mim, a que gostava de descobrir os segredos da natureza, a que vibrava com as descobertas científicas e todas as suas potencialidades de mudar o mundo.
Ainda hoje sinto essa nostalgia…
Quando escrevo, seja para que idade for, vêm naturalmente à tona de "água os temas que mais me tocam.
Considero que é fundamental que os jovens conheçam o passado mas tenham os pés bem pousados na actualidade. Que se entusiasmem com as conquistas do homem no campo da ciência
E da tecnologia, que sonhem um futuro melhor, que dependerá, em grande parte, desses avanços. Em vez de serem simples consumistas de artefactos modernos ( telemóveis, jogos electrónicos, vídeos, etc.), pensem no papel reservado aos cientistas teóricos e inventores que poderão transformar o dia de amanhã num inferno ( com bombas atómicas, armas biológicas, vírus informáticos, técnicas de espionagem da vida privada ) ou num paraíso ( com a descoberta de novos medicamentos, fantásticos meios de transporte não poluentes, com utilização de novas fontes de energia, dos progressos da genética em prol da saúde). Os jovens devem tomar consciência de que está nas suas mãos a possibilidade de inventar e produzir uma sociedade melhor r que tal passa pela ciência aliada à cidadania.

. A infância e a adolescência de cada um marcam fortemente a maturidade. Que mitologias transportou para a ficção, recriando-as?

Eu vivi até aos vinte e cinco anos mesmo em frente da Torre de Belém. Tinha os olhos sempre azuis do rio e a minha imaginação entrava e saía a barra com os navios. A Torre, na minha infância, ficava numa praia onde havia ainda pescadores , onde os miúdos pobres e os cavalos dos quartéis próximos iam tomar banho. Havia ainda golfinhos no Tejo… Todos os meus passeios tinham a ver com o que restava das descobertas. Num outeiro, por trás da minha casa, pastavam ovelhas, junto à capela onde Vasco da Gama foi rezar antes de partir para a Índia. Estava então abandonada e servia de matadouro clandestino. Ao fim da minha rua ficavam os Jerónimos. Talvez o velho do Restelo tivesse morado no mesmo sítio que eu. A vivência ligada às águas do rio, ao mar e aos seus caminhos nunca me abandonou.
Estabeleci, desde muito cedo, laços afectivos com os animais. Gosto de os olhar nos olhos, de igual para igual, considerando que este planeta não é só dos homens mas de todos os que o habitam. Alguns dos meus melhores amigos, dos mais autênticos, dos mais leais têm sido animais. Quando eu tinha nove ou dez anos vivia na nossa capoeira um coelho que passava todas as tardes comigo, era com ele que eu gostava de brincar, de falar quando vinha da escola. Compreendia todos os meus estados de espírito, estava sempre pronto a acompanhar-me. Um dia cheguei a casa, fui procurá-lo mas tinha desaparecido. Fui ao frigorífico buscar leite e vi lá um coelho esfolado. A pele estava no caixote do lixo. Peguei no corpo ensanguentado do meu amigo e enterrei-o no quintal.
Os animais povoam os meus livros, mesmo que eu não tencione chamá-los, eles saltam-me para o papel porque os trago no coração.
A problemática das diferenças sociais marcou-me profundamente. Em frente das minhas janelas havia um chafariz monumental onde, ao longo do dia, mulheres com bilha à cabeça iam buscar água. A minha mãe recordou-me algumas vezes a vergonha que sentia quando eu perguntava às amigas dela se tinham água em casa. Parece que foi das primeiras perguntas que fiz. Nunca me dei com as pessoas do meu bairro porque eram consideradas "uma gentinha". Quando saía, a minha mãe dizia às outras mães que eu tinha uma doença contagiosa para os filhos delas não se aproximarem de mim. Andei até aos doze anos em colégios estrangeiros, longe dali. E no 3ºano ( actual 7º ) o meu pai achou que eu tinha de conhecer a vida e matriculou-me no liceu.
Meu pai tinha ficado orfão na infância, foi um combatente antifascista, conheceu as prisões da ditadura e, a partir dessa idade, elegi-o como meu interlocutor preferido. Saía com ele de carro, quando ia ver doentes, de porta em porta, ou se dirigia aos fins de semana para os hospitais e, longe da minha mãe, aprendi com ele a dignidade dos pobres, injustiçados, desprotegidos, o sentido da palavra solidariedade. Um mundo para todos, fraterno e aberto será um mito? Não posso viver sem ele!

. Todo o criador inventa caminhos particulares na consecução da obra de ARTE. Como se processa, no seu caso, o acto criador?

A criação de um texto literário, no meu caso, passa-se às vezes praticamente sem intervenção consciente. O limite é acordar com um poema pronto na cabeça. Tenho sempre lápis e papel na mesinha de cabeceira para transcrição imediata. Se ela não for feita, esvai-se como um sonho e não mais o consigo agarrar.
Ás vezes há palavras e frases que insistem em visitar-me. Pego nelas e, a partir daí surge um conto, uma poesia. Quando começo a escrever não sei onde irei ter. Gosto de embarcar nessa aventura de me entregar à "inspiração".
Quando procuro esquematizar um escrito de ficção, delineá-lo antes de escrever, raramente levo o trabalho a bom porto. Já está inventado. Apetece-me inventar outro.
Claro que consigo fazer um texto por encomenda. Tenho feito vários mas o facto de pensar que tenho de me cingir a determinados moldes é, por vezes um tormento. Outras vezes funciona como um desafio.
Trabalhar com base na "inspiração" não significa que todos os textos assim realizados venham à luz do dia tal como um dia serão impressos. Às vezes são lidos e relidos, alterados, acrescentados, truncados. Sou capaz de andar dias seguidos com um texto já escrito às voltas no meu pensamento. Vou a subir para um autocarro e aparece-me a expressão que procuro. Preparo-me para abrir a caixa de correio electrónico e já não a abro porque tenho de tomar nota dum parágrafo que me falta. Estou num supermercado e, de repente, lembro-me do nome que fica bem a determinado personagem.
Preciso, mais que tudo, de silêncio. Mas o silêncio é tão difícil de conseguir…E de uma lapiseira. Posso ter muita vontade de escrever mas, se apenas tiver à mão uma caneta, sou incapaz de o fazer. Saio, se preciso for, vou comprá-la com sol ou chuva, com temporal.
Às vezes, escrevo directamente no computador. Mas, por enquanto, prefiro o contacto directo com o papel.
 

CRILIJ - Centro de Recursos e Investigação para a Literatura Infantil e Juvenil


CRILIJ- o que é | A Vida e obra de... | Concurso-resultados | Boletim-adesão

copyright CESAE @2002