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. Há a natureza das Pessoas e a das Coisas. A sua busca segue
preferencialmente qual das opções?
Toda a natureza me fascina. A das coisas e a das pessoas. Aliás eu tenho uma
concepção muito panteísta do mundo. Somos um todo. Adoro o irmão sol e a irmã
lua, o irmão homem desconhecido com que me cruzo na rua, a irmã criança com
olhos deslumbrados, o irmão cão, o irmão pássaro, a irmã árvore.
. Os afectos, a razão, a imaginação, a intuição povoam a interioridade do
criador. Que peso assumem na sua obra?
Nunca pensei no peso que assumem na minha obra. Quando escrevo, em geral,
não penso em nada, deixo-me levar pela aventura de escrever, sem lhe por
travão. Depois da obra escrita poderei, como qualquer leitor, reflectir
sobre o que escrevi e, em certos casos, reescrever de acordo com o meu
sentido crítico.
Mas vejamos…
Talvez sejam frequentemente os afectos que me induzem a pegar numa lapiseira
ou a sentar-me diante do computador e escrever. Escrevo por amor, raiva,
indignação, muitas vezes. Os afectos desencadeiam uma premência de
expressão.
Quanto à razão, prezo-a demais para desejar, em algum momento, ignorá-la.
Nos meus escritos procuro manter clarividência, mesmo nos momentos lúdicos,
aparentemente de nonsense. Aposto na passagem de testemunho dos valores da
cidadania, por exemplo.
A capacidade de imaginar talvez seja a minha principal qualidade. É decerto
o meu maior prazer. Mas a imaginação por vezes também traz problemas. Às
vezes imagino tantas, tantas coisas, que fico submersa em múltiplos enredos,
inumeros desfechos para uma história, uma dúzia de versões de um poema…
Quem não se gaba de ter alguma intuição? Todos a têm ou julgam ter. Eu
também. Mas não aposto apenas nela. Gosto de fazer passar as intuições pelo
crivo do pensamento crítico. As intuições apressadas levam-nos muitas vezes
a um simplismo na abordagem de um assunto, no conhecimento de uma pessoa.
. Com o riso ou o sorriso se esbatem o desagradável, o insólito, o
rotineiro. De que modo se integram nos seus escritos?
O riso, de uma certa irreverência e ironia são indubitavelmente elementos
muito presentes nos meus escritos. Nem sempre a minha vida tem sido um mar
de rosas e mesmo as rosas trazem consigo alguns espinhos. Mas aprendi uma
lição com o meu pai, longe, bem longe, nos desvãos da infância. Ele era
médico, todo o dia convivia com a doença e a morte. Mas era seu ponto de
honra ter sempre um sorriso, uma anedota, uma história engraçada para
contar. Lembro-me bem de o ouvir rir, brincando com os doentes no hospital.
Por vezes com doentes terminais, para quem aquele riso era o único remédio
possível. Lembro-me do seu riso em casa: com ele entrava o sol de roldão,
apagando o bafio das rotinas, a arrelia dos pequenos problemas, o azedume de
querelas.
"Estar bem disposto é uma obrigação moral !" dizia ele. E eu
concordo.
Com um sorriso se podem abordar problemas sérios ou simplesmente jogar,
ludicamente. Um sorriso é capaz de se transformar num elo afectivo e
efectivo de ligação de pessoas, é capaz de desarmar mais que uma espingarda.
E quem não sabe que rir até faz bem à saúde?
Julgo que pela alegria, pelo riso, é possível conquistar muitos jovens para
a leitura, principalmente aqueles que estão fartos de ambientes cinzentos,
de rostos carregados e carrancudos, de bafientos moralismos.
. Assiste-se, nos seus livros, ora a um revivalismo do passado, caso das
adaptações da literatura oral, ora `comunhão nas conquistas científicas da
contemporaneidade. Em que sentido persegue essas duas perspectivas, tendo em
conta o público - destinatário?
As duas perspectivas me interessam igualmente.
Que somos nós senão passageiros em trânsito do passado para o futuro? O
presente é apenas uma estação em que paramos por um momento. É indispensável
não perdermos a memória em relação ao que foi vivido e pensado antigamente.
Essa memória fortalece a identidade cultural, é a herança irrecusável que
nos foi legada por gerações e gerações. A literatura oral sobreviveu , por
vezes ao longo de muitos séculos, por constituir um repositório de
arquétipos intemporais,
de sabedoria acessível a toda a gente. Gosto de aproveitar a água desse rio
imenso, que é a tradição, e fazer com ela os meus cozinhados…
Mas o futuro está à nossa frente, é para ele que caminhamos. Quando aos 14
anos, enredada em indecisões, optei por um futuro ligado às Letras, senti
que perdia parte de mim, a que gostava de descobrir os segredos da natureza,
a que vibrava com as descobertas científicas e todas as suas potencialidades
de mudar o mundo.
Ainda hoje sinto essa nostalgia…
Quando escrevo, seja para que idade for, vêm naturalmente à tona de "água os
temas que mais me tocam.
Considero que é fundamental que os jovens conheçam o passado mas tenham os
pés bem pousados na actualidade. Que se entusiasmem com as conquistas do
homem no campo da ciência
E da tecnologia, que sonhem um futuro melhor, que dependerá, em grande
parte, desses avanços. Em vez de serem simples consumistas de artefactos
modernos ( telemóveis, jogos electrónicos, vídeos, etc.), pensem no papel
reservado aos cientistas teóricos e inventores que poderão transformar o dia
de amanhã num inferno ( com bombas atómicas, armas biológicas, vírus
informáticos, técnicas de espionagem da vida privada ) ou num paraíso ( com
a descoberta de novos medicamentos, fantásticos meios de transporte não
poluentes, com utilização de novas fontes de energia, dos progressos da
genética em prol da saúde). Os jovens devem tomar consciência de que está
nas suas mãos a possibilidade de inventar e produzir uma sociedade melhor r
que tal passa pela ciência aliada à cidadania.
. A infância e a adolescência de cada um marcam fortemente a maturidade.
Que mitologias transportou para a ficção, recriando-as?
Eu vivi até aos vinte e cinco anos mesmo em frente da Torre de Belém. Tinha
os olhos sempre azuis do rio e a minha imaginação entrava e saía a barra com
os navios. A Torre, na minha infância, ficava numa praia onde havia ainda
pescadores , onde os miúdos pobres e os cavalos dos quartéis próximos iam
tomar banho. Havia ainda golfinhos no Tejo… Todos os meus passeios tinham a
ver com o que restava das descobertas. Num outeiro, por trás da minha casa,
pastavam ovelhas, junto à capela onde Vasco da Gama foi rezar antes de
partir para a Índia. Estava então abandonada e servia de matadouro
clandestino. Ao fim da minha rua ficavam os Jerónimos. Talvez o velho do
Restelo tivesse morado no mesmo sítio que eu. A vivência ligada às águas do
rio, ao mar e aos seus caminhos nunca me abandonou.
Estabeleci, desde muito cedo, laços afectivos com os animais. Gosto de os
olhar nos olhos, de igual para igual, considerando que este planeta não é só
dos homens mas de todos os que o habitam. Alguns dos meus melhores amigos,
dos mais autênticos, dos mais leais têm sido animais. Quando eu tinha nove
ou dez anos vivia na nossa capoeira um coelho que passava todas as tardes
comigo, era com ele que eu gostava de brincar, de falar quando vinha da
escola. Compreendia todos os meus estados de espírito, estava sempre pronto
a acompanhar-me. Um dia cheguei a casa, fui procurá-lo mas tinha
desaparecido. Fui ao frigorífico buscar leite e vi lá um coelho esfolado. A
pele estava no caixote do lixo. Peguei no corpo ensanguentado do meu amigo e
enterrei-o no quintal.
Os animais povoam os meus livros, mesmo que eu não tencione chamá-los, eles
saltam-me para o papel porque os trago no coração.
A problemática das diferenças sociais marcou-me profundamente. Em frente das
minhas janelas havia um chafariz monumental onde, ao longo do dia, mulheres
com bilha à cabeça iam buscar água. A minha mãe recordou-me algumas vezes a
vergonha que sentia quando eu perguntava às amigas dela se tinham água em
casa. Parece que foi das primeiras perguntas que fiz. Nunca me dei com as
pessoas do meu bairro porque eram consideradas "uma gentinha". Quando saía,
a minha mãe dizia às outras mães que eu tinha uma doença contagiosa para os
filhos delas não se aproximarem de mim. Andei até aos doze anos em colégios
estrangeiros, longe dali. E no 3ºano ( actual 7º ) o meu pai achou que eu
tinha de conhecer a vida e matriculou-me no liceu.
Meu pai tinha ficado orfão na infância, foi um combatente antifascista,
conheceu as prisões da ditadura e, a partir dessa idade, elegi-o como meu
interlocutor preferido. Saía com ele de carro, quando ia ver doentes, de
porta em porta, ou se dirigia aos fins de semana para os hospitais e, longe
da minha mãe, aprendi com ele a dignidade dos pobres, injustiçados,
desprotegidos, o sentido da palavra solidariedade. Um mundo para todos,
fraterno e aberto será um mito? Não posso viver sem ele!
. Todo o criador inventa caminhos particulares na consecução da obra de
ARTE. Como se processa, no seu caso, o acto criador?
A criação de um texto literário, no meu caso, passa-se às vezes praticamente
sem intervenção consciente. O limite é acordar com um poema pronto na
cabeça. Tenho sempre lápis e papel na mesinha de cabeceira para transcrição
imediata. Se ela não for feita, esvai-se como um sonho e não mais o consigo
agarrar.
Ás vezes há palavras e frases que insistem em visitar-me. Pego nelas e, a
partir daí surge um conto, uma poesia. Quando começo a escrever não sei onde
irei ter. Gosto de embarcar nessa aventura de me entregar à "inspiração".
Quando procuro esquematizar um escrito de ficção, delineá-lo antes de
escrever, raramente levo o trabalho a bom porto. Já está inventado.
Apetece-me inventar outro.
Claro que consigo fazer um texto por encomenda. Tenho feito vários mas o
facto de pensar que tenho de me cingir a determinados moldes é, por vezes um
tormento. Outras vezes funciona como um desafio.
Trabalhar com base na "inspiração" não significa que todos os textos assim
realizados venham à luz do dia tal como um dia serão impressos. Às vezes são
lidos e relidos, alterados, acrescentados, truncados. Sou capaz de andar
dias seguidos com um texto já escrito às voltas no meu pensamento. Vou a
subir para um autocarro e aparece-me a expressão que procuro. Preparo-me
para abrir a caixa de correio electrónico e já não a abro porque tenho de
tomar nota dum parágrafo que me falta. Estou num supermercado e, de repente,
lembro-me do nome que fica bem a determinado personagem.
Preciso, mais que tudo, de silêncio. Mas o silêncio é tão difícil de
conseguir…E de uma lapiseira. Posso ter muita vontade de escrever mas, se
apenas tiver à mão uma caneta, sou incapaz de o fazer. Saio, se preciso
for, vou comprá-la com sol ou chuva, com temporal.
Às vezes, escrevo directamente no computador. Mas, por enquanto, prefiro o
contacto directo com o papel.
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